domingo, 9 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
A Diferença Entre Cobrar e Receber Amor
A Diferença Entre Cobrar e Receber Amor - Bel Cesar
A origem da carência afetiva encontra-se em nossa dificuldade para receber amor. É como estar com fome e não ter estômago para digerir. Mas, como será que nosso estômago afetivo tornou-se tão pequeno? Fomos nos alimentando cada vez menos, à medida em que o alimento emocional tornou-se escasso ou invasivo.
Em outras palavras, fomos instintivamente diminuindo nosso estado de receptividade ao associar a experiência de receber amor a vivências de insuficiência, abandono ou de um controle excessivo. Se nos sentimos manipulados ao receber alimentos, presentes, elogios, carícias e incentivos, associamos a idéia de receber com o dever de retribuir algo além de nossa capacidade ou vontade pessoal. Quem não se lembra de ter escutado advertências como: Agora você já deve se comportar como um menino grande ou Se você comer todo jantar, pode comer a sobremesa....
Estas frases parecem inocentes, mas revelam os condicionamentos pelos quais passamos a aprender que receber modula nosso modo de ser.
Filhos de pais intrometidos e controladores desde cedo aprendem a conter seus desejos, pois sabem que ao revelarem suas intenções acabarão tendo que abandonar seus planos para realizar as vontades de seus pais. Para garantir fidelidade frente aos seus desejos e gostos, diferentes de seus pais e orientadores, acabam se contraindo cada vez mais - por um instinto de autopreservação, necessário no processo de autoconhecimento e autoconfiança, distanciam-se de seus pais para conhecer a si mesmos.
Desta forma, com a intenção de nos proteger do excesso ou da falta de atenção diante de nossas necessidades de amarmos e sermos amados, fomos nos fechando, isto é, formando camadas protetoras contra os ataques diante à nossa vulnerabilidade. Este processo sutil e delicado tem um efeito bastante grave: ao estar mais atento no que estou recebendo do que no que desejo, acabo aprendendo a dar mais atenção ao mundo exterior que às minhas reais necessidades.
A necessidade de ser amado faz parte de nosso instinto de sobrevivência, portanto é algo natural, enquanto seres que vivem em sociedade. Mas em nossa sociedade materialista onde autonomia é sinônimo de maturidade, muitas vezes esta necessidade é vista como um sinal de imaturidade ou infantilidade. Vamos esclarecer este preconceito: amar só se torna infantil quando se torna uma exigência unilateral: quando queremos apenas ser amados.
Estranhamente, quando quero algo do outro, deixo de perceber a mim mesmo. Quando preciso do outro, passo a controlá-lo. Então, ao invés de expressar o meu amor, passo a cobrar por atenção. No lugar de dizer que amo, digo o que falta no outro para me sentir amada.
Quantas discussões entre casais, pais e filhos estão baseadas nesta troca de intenções!
Vamos exemplificar melhor este drama. Quando o parceiro se distancia, por razões alheias à sua parceira, ela se sente abandonada. Então, no lugar de dizer: Quero estar mais próxima de você, ela diz: Você está distante!. Este seu modo de alertar o outro de sua carência é defensivo. Ela não está sendo aberta, nem transparente, pois detrás de sua reclamação há um desejo de controlá-lo, para que ele seja do modo como ela quer. Ele, sentindo-se pressionado, perde a espontaneidade e afasta-se cada vez mais. Ela sentindo-se carente, se torna refém da atenção dele!
Quando nos tornamos refém do comportamento alheio, deixamos de estar conectados ao nosso sentimento de amar e esperamos apenas ser amados. Em outras palavras, deixo de perceber o que estou sentindo em relação a ele e apenas me atenho ao que ele está demonstrando sentir em relação a mim. A expressão do afeto se contrai sob a pressão e gradualmente ambos perdem a espontaneidade.
Há uma diferença entre expressar claramente o que se quer e cobrar indiretamente o que se necessita. No momento em que simplesmente expresso meu desejo, desobrigo o outro de atuar. Assim, ele já não se sente mais pressionado a mudar e torna-se naturalmente disposto a retomar a relação.
Ao perceber nossas verdadeiras necessidades, desejos e intenções, liberamos o outro da carga de adivinhar o que secreta e indiretamente desejamos. Deixamos de imaginar o que precisamos e passamos a sentir nossas reais necessidades.
Este processo exige auto-observação. Muitas vezes, dar-se conta de algo que nos falta dói mais do que imaginávamos. Perceber nosso bloqueio em saber receber pode ser uma surpresa maior do que pensávamos. Mas, a cada momento que percebo uma limitação interior tenho a chance de mudar. Como?
Começando por admitir que receber é bom. Não é uma ameaça. Só a experiência pode nos afirmar o que queremos ou não. Precisamos aprender a sermos sinceros com nossas necessidades frente aos desejos alheios. Isso ocorre quando nosso sim é um sim verdadeiro.
Não precisamos deixar de ser quem somos ao receber algo intencional de outra pessoa. Não precisamos usar máscaras sociais comportando-nos como é esperado de nós. Nem nos sentirmos insuficientes e inadequados se não estivermos em condições de retribuir. Podemos ser autênticos!
Nos sentimos amados quando o outro nos aceita tal como somos. Portanto, dar amor é abrir-se para receber o amor que o outro tem para lhe dar. Dar um espaço de si para acolher o outro em seu interior.
Bel Cesar é psicóloga e pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano.
sábado, 18 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
AFASTE-SE DE PESSOAS QUE LHE FAZEM SENTIR-SE MAL
AFASTE-SE DE PESSOAS QUE LHE FAZEM SENTIR-SE MAL
De fato estamos cercados de pessoas tóxicas.
Pessoas que são egocêntricas, manipuladoras, interesseiras, arrogantes, rancorosas, amarguradas, mal amadas, invejosas ou fracassadas, que não c
onseguem
ver o sucesso ou a felicidade alheia. Enfim, pessoas sombrias que minam
os relacionamentos e amizades com intrigas, críticas excessivas, falta
de consideração e respeito pelo outro e abusos verbais ou físicos.
Pessoas muito perigosas de se conviver.
Essas pessoas tóxicas acabam, de alguma forma, nos envenenando. Direta ou indiretamente, acabamos agindo por influência delas, seja com atitudes ou omissões. Muitas vezes acabamos agindo por impulso para evitar essas pessoas, ou, na pior das hipóteses, acabamos agindo da mesma forma. São pessoas nocivas, intoxicando nosso comportamento e nos levando a agir e a tomar decisões que, em outras circunstâncias poderiam ser completamente diferentes.
São "tóxicas", porque conseguem despertar o que há de pior dentro de nós, não apenas no sentido de maldade ou crueldade, mas no sentido de perdermos a identidade, a autonomia, a energia, a iniciativa e o poder de decisão. Ficamos estagnados, hipnotizados, paralizados. São verdadeiros vampiros, sem Luz própria, que consomem nossa energia vital, que exploram e manipulam pessoas de acordo com os seus interesses e vivem às custas da energia dos outros para se sustentarem.
Tóxicas são aquelas pessoas que sabem tudo a respeito da vida das outras pessoas, mas não conseguem administrar a própria vida. Sabem dar conselhos como ninguém (há até terapeutas nessa categoria!) tem um discurso lindíssimo para o mundo lá fora, mas que, na vida pessoal, nos bastidores, na vida íntima, são pessoas frustradas, isoladas, verdadeiras ilhas no meio da sociedade, que não tomam para si os próprios conselhos.
Sabem olhar de fora, apontar defeitos, problemas, erros. Mas não sabem participar, não conseguem enxergar os próprios problemas ou defeitos. Apontam os erros alheios para, de certa forma, esconder os seus próprios. São os "sabe-tudo" e só a sua forma de pensar é que está certa. Não suportam ser contrariados e confrontados. Quando o são, perseguem a pessoa até "livrarem-se" dela ou então se vingam. Seu Ego é Superlativo para compensar a sua extrema falta de Amor-Próprio. Usam as pessoas conforme seus interesses e, quando estas discordam de suas idéias, são descartadas e eliminadas, sem a menor consideração.
A "toxicidade" reside exatamente no fato de não nos darmos conta de que estamos sendo manipulados ou influenciados. Ficamos hipnotizados, fascinados, imersos numa imensa ilusão, até o dia em que despertamos e tomamos consciência de que estamos muito mal, morrendo por dentro, e que algo urgente necessita ser feito. Um corte para a nossa libertação, para resgatar a nossa sanidade, saúde, alegria de viver.
Em nossa busca pela felicidade, por tudo aquilo que nos traz bem-estar e alegria, o grande segredo é não se deixar influenciar, se afastar e evitar a convivência com esses tipos. Isso não significa alimentar sentimentos negativos dentro de si com relação a eles, mas de preferência visualizá-los felizes e agradecidos em sua vida, emanando energias e vibrações positivas.
Reflita, você convive intimamente com alguma pessoa tóxica, seja na família, no trabalho, ou nas "amizades"?
Tenha cuidado, afaste-se, fique longe o quanto antes dessas pessoas...
Cuide-se, preserve-se, seja você mesmo, seja pleno e feliz..
Essas pessoas tóxicas acabam, de alguma forma, nos envenenando. Direta ou indiretamente, acabamos agindo por influência delas, seja com atitudes ou omissões. Muitas vezes acabamos agindo por impulso para evitar essas pessoas, ou, na pior das hipóteses, acabamos agindo da mesma forma. São pessoas nocivas, intoxicando nosso comportamento e nos levando a agir e a tomar decisões que, em outras circunstâncias poderiam ser completamente diferentes.
São "tóxicas", porque conseguem despertar o que há de pior dentro de nós, não apenas no sentido de maldade ou crueldade, mas no sentido de perdermos a identidade, a autonomia, a energia, a iniciativa e o poder de decisão. Ficamos estagnados, hipnotizados, paralizados. São verdadeiros vampiros, sem Luz própria, que consomem nossa energia vital, que exploram e manipulam pessoas de acordo com os seus interesses e vivem às custas da energia dos outros para se sustentarem.
Tóxicas são aquelas pessoas que sabem tudo a respeito da vida das outras pessoas, mas não conseguem administrar a própria vida. Sabem dar conselhos como ninguém (há até terapeutas nessa categoria!) tem um discurso lindíssimo para o mundo lá fora, mas que, na vida pessoal, nos bastidores, na vida íntima, são pessoas frustradas, isoladas, verdadeiras ilhas no meio da sociedade, que não tomam para si os próprios conselhos.
Sabem olhar de fora, apontar defeitos, problemas, erros. Mas não sabem participar, não conseguem enxergar os próprios problemas ou defeitos. Apontam os erros alheios para, de certa forma, esconder os seus próprios. São os "sabe-tudo" e só a sua forma de pensar é que está certa. Não suportam ser contrariados e confrontados. Quando o são, perseguem a pessoa até "livrarem-se" dela ou então se vingam. Seu Ego é Superlativo para compensar a sua extrema falta de Amor-Próprio. Usam as pessoas conforme seus interesses e, quando estas discordam de suas idéias, são descartadas e eliminadas, sem a menor consideração.
A "toxicidade" reside exatamente no fato de não nos darmos conta de que estamos sendo manipulados ou influenciados. Ficamos hipnotizados, fascinados, imersos numa imensa ilusão, até o dia em que despertamos e tomamos consciência de que estamos muito mal, morrendo por dentro, e que algo urgente necessita ser feito. Um corte para a nossa libertação, para resgatar a nossa sanidade, saúde, alegria de viver.
Em nossa busca pela felicidade, por tudo aquilo que nos traz bem-estar e alegria, o grande segredo é não se deixar influenciar, se afastar e evitar a convivência com esses tipos. Isso não significa alimentar sentimentos negativos dentro de si com relação a eles, mas de preferência visualizá-los felizes e agradecidos em sua vida, emanando energias e vibrações positivas.
Reflita, você convive intimamente com alguma pessoa tóxica, seja na família, no trabalho, ou nas "amizades"?
Tenha cuidado, afaste-se, fique longe o quanto antes dessas pessoas...
Cuide-se, preserve-se, seja você mesmo, seja pleno e feliz..
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Tradições Escolas Tibetanas
Comparação Introdutória das Cinco Tradições Tibetanas de Budismo e de Bon
Alexander Berzin
Berlim, Alemanha, 10 de Janeiro de 2000
suplementado com excertos de uma palestra do mesmo tópico
Munique, Alemanha, 30 de Janeiro de 1995
Berlim, Alemanha, 10 de Janeiro de 2000
suplementado com excertos de uma palestra do mesmo tópico
Munique, Alemanha, 30 de Janeiro de 1995
O Bon como sendo a Quinta tradição do Tibete
A maioria das pessoas fala do Tibete como tendo quatro tradições:
Nyingma, Kagyu, Sakya, e Gelug, sendo esta a continuação reformada da
tradição mais antiga de Kadam. Contudo, na conferência não-sectária de tulkus
(lamas encarnados) e abades, que Sua Santidade o Dalai Lama reuniu em
Sarnath, na India, em Dezembro de 1988, Sua Santidade enfatizou a
importância de adicionar a tradição tibetana pré-budista de Bon às
quatro tradições e da importância de sempre se falar em cinco tradições
tibetanas. Ele explicou que a questão importante não é a de considerar
ou não o Bon como uma tradição budista. A forma de Bon que se
desenvolveu desde o século XI da era comum compartilha o suficiente com
as quatro tradições budistas tibetanas para que nós consideremos todas
as cinco como uma unidade.
Hierarquia e Descentralização
Antes de examinarmos as similaridades e as diferenças entre as cinco
tradições tibetanas, precisamos de nos lembrar que nenhum dos sistemas
tibetanos forma uma igreja organizada como, por exemplo, a igreja
católica. Nenhuma delas é, em termos de organização, centralizada dessa
maneira. Os líderes das tradições, abades e assim por adiante, são
principalmente responsáveis por conceder as ordenações monásticas e por
transmitir as linhagens de transmissões orais e de empoderamentos
tântricos (iniciações). O interesse principal deles não é a
administração. A hierarquia afeta principalmente o lugar onde as pessoas
se sentam nas grandes ceremonias rituais (pujas); em quantas
almofadas elas se sentam; a ordem em que lhes é servido o chá; e assim
por diante. Por várias razões geográficas e culturais, o povo tibetano
tende a ser extremamente independente e cada mosteiro tende a seguir os
seus próprios costumes. Os lugares remotos dos mosteiros, as distâncias
enormes entre eles e as dificuldades em viajar e comunicar reforçaram a
tendência para a descentralização.
Características comuns
As cinco tradições tibetanas compartilham muitas características em
comum, talvez uns oitenta por cento ou mais. As suas histórias revelam
que as linhagens não existem como monolíticos separados e isolados
dentro de barreiras concretas, sem nenhum contato entre elas. O numero
de tradições como sendo cinco foi o resultado dos seus mestres
fundadores terem reunido e combinado dentro delas várias linhas de
transmissão, vindas principalmente da India. Por convenção, os seus
seguidores chamaram a cada uma das suas sínteses “uma linhagem,” mas
muitas das mesmas linhas de transmissão também formam parte das misturas
das outras tradições.
Tradições Monásticas e Leigas
A primeira coisa que as cinco têm em comum é que contém tradições
tanto monásticas quanto leigas. As suas tradições leigas incluem tanto iogues e yoginis
casados, engajados na prática intensiva de meditação tântrica, como
pessoas leigas comuns cuja prática de Dharma envolve principalmente a
recitação de mantras, fazer oferendas nos templos e em casa e a
circunvagação de monumentos sagrados. As tradições monásticas de todas
as cinco possuem a ordenação completa do monge noviço e a ordenação da
monja noviça. A ordenação completa das monjas nunca chegou ao Tibete. As
pessoas normalmente entram para os mosteiros e conventos por volta dos
oito anos de idade. A arquitetura e o décor monástico são praticamente
iguais em todas as tradições.
As quatro escolas budistas compartilham a mesma série de votos
monásticos da India, Mula-Sarvastivada. O Bon tem um conjunto de votos
ligeiramente diferente, mas a maior parte deles é igual aos votos dos
budistas. Uma diferença proeminente é que os monásticos bonpo fazem o
voto para se tornarem vegetarianos. Os monásticos de todas as tradições
raspam as suas cabeças; mantêm o celibato e vestem o mesmo hábito de cor
grená sem mangas, com uma saia e um manto. Os monásticos Bon
simplesmente substituiram o azul pelo amarelo nos painéis centrais da
veste.
Estudo do Sutra
Todas as tradições tibetanas seguem um caminho que combina o estudo
do sutra e do tantra com a prática do ritual e da meditação. Enquanto
crianças, os monásticos memorizam um número vasto de textos escolásticos
e de rituais e estudam por meio de debates calorosos. Os tópicos do
sutra estudados são os mesmos tanto para os budistas como para os
bonpos. Eles incluem o prajnaparamita (discriminação de grande alcance, a perfeição da sabedoria) a respeito dos estágios do caminho, o madhyamaka (o caminho do meio) a respeito da visão correta da realidade (vacuidade), do pramana (maneiras válidas de saber) a respeito da percepção e da lógica, e o abhidharma
(tópicos especiais do conhecimento) a respeito da metafísica. Os livros
didáticos tibetanos para cada tópico diferem ligeiramente nas suas
interpretações, não só entre as cinco tradições mas também até entre os
mosteiros dentro de cada tradição. Tais diferenças tornam os debates
mais interessantes. Na conclusão de um longo curso de estudo, todas as
cinco tradições concedem um diploma, de Geshe ou de Khenpo.
Todas as quatro escolas budistas tibetanas estudam as quatro
tradições de doutrinas filosóficas do budismo indiano - Vaibhashika,
Sautrantika, Chittamatra, e Madhyamaka. Embora as escolas expliquem as
doutrinas filosóficas de um modoligeiramente diferente, cada uma delas
aceita madhyamaka como apresentando a posição mais sofisticada e
precisa. As quatro também estudam os mesmos textos clássicos indianos de
Maitreya, Asanga, Nagarjuna, Chandrakirti, Shantideva, e assim por
adiante. Além disso, cada escola tem o seu próprio conjunto de
comentários tibetanos, que diferem ligeiramente uns dos outros.
Estudo e Prática do Tantra
O estudo e a prática do tantra abrangem todas as quatro ou seis
classes do tantra, dependendo do esquema de classificação. As quatro
tradições budistas praticam muitas das mesmas figuras búdicas
(divindades, yidams), como Avalokiteshvara, Tara, Manjushri,
Chakrasamvara (Heruka), e Vajrayogini (Vajradakini). Praticamente
nenhuma prática de figura búdica é domínio exclusivo de uma só tradição.
Os gelugpas também praticam Hevajra, a figura principal Sakya, e os
shangpa kagyupas praticam Vajrabhairava (Yamantaka), a figura principal
de Gelug. As figuras búdicas do Bon têm atributos similares às do
budismo - por exemplo, as figuras que personificam a compaixão ou a
sabedoria – apenas têm nomes diferentes.
Meditação
A meditação em todas as cinco tradições tibetanas envolve empreender
longos retiros, frequentemente por três anos e três fases da lua. Os
retiros são precedidos por práticas preliminares intensivas, requerendo
centenas de milhares de prostrações, repetições de mantras, e assim por
diante. O número das preliminares, a maneira de fazê-las, e a estrutura
do retiro de três anos diferem ligeiramente de uma escola para a outra.
No entanto, basicamente, todos praticam o mesmo.
Ritual
A prática de ritual é também muito similar em todas as cinco
tradições tibetanas. Todas elas oferecem tigelas de água, lâmpadas de
manteiga e incenso; sentam-se de pernas cruzadas da mesma maneira; usam
vajras, sinos, e tamborins damaru; tocam os mesmos tipos de
chifres, de címbalos, e de tamborins; recitam em voz alta; oferecem e
provam carne e álcool, consagrados durante ceremónias especiais (tsog); e servem chá com manteiga durante todas as assembleias rituais. Seguindo os costumes de origem Bon, todas elas oferecem tormas
(cones esculpidos de farinha de cevada misturados com manteiga);
invocam os espíritos locais para proteção; afugentam os maus espíritos
com rituais elaborados; fazem esculturas de manteiga em ocasiões
especiais; e penduram coloridas bandeiras de orações. Todas elas alojam
relíquias de grandes mestres em monumentos stupa e os budistas
andam à volta no sentido do relógio, enquanto que os bonpos andam à
volta no sentido contrário do relógio. Até os seus estilos de arte
religiosa são extremamente semelhantes. As proporções das figuras nas
pinturas e nas estátuas seguem sempre as mesmas regras fixas.
O Sistema Tulku de Lamas Reencarnados
Cada uma das cinco tradições tibetanas tem também o sistema tulku.
Tulkus são linhas de lamas reencarnados, grandes praticantes que
controlam seus renascimentos. Quando eles morrem, geralmente durante um
tipo especial de meditação na conjuntura da morte, os seus discípulos
usam métodos especiais para procurar e encontrar as suas reencarnações
entre pequenas crianças - depois de um período adequado ter passado. Os
discípulos levam as novas reencarnações de volta às suas casas
anteriores e treinam-nas com os melhores professores. Os monásticos e os
leigos tratam os tulkus de todas as cinco tradições com o mais elevado
respeito. Eles frequentemente consultam os tulkus e outros grandes
mestres para um mo (prognóstico) acerca de assuntos importantes
das suas vidas, que geralmente são feitos lançando três dados enquanto
invocam uma ou outra figura búdica.
Embora todas as tradições tibetanas incluam o treinamento no estudo
textual, no debate, no ritual, e na meditação, a ênfase varia de
mosteiro a mosteiro, mesmo dentro da mesma escola tibetana, e de
indivíduo a indivíduo mesmo dentro do mesmo mosteiro. Além disso, com a
exceção dos grandes lamas, dos idosos e doentes, os monges e as monjas
se revesam para fazer o trabalho doméstico requerido para manter os
mosteiros e conventos, tais como a limpeza dos salões onde a congregação
se junta, arranjar das oferendas, buscar a água e combustível, cozinhar
e servir o chá. Mesmo que certos monges ou monjas se dediquem
principalmente a estudar, debater, ensinar, ou meditar, ainda precisam
participar nas orações, recitações e rituais comunais que levam uma
parte significativa do dia e da noite de todos. Dizer que os Gelug e
Sakya enfatizam o estudo, enquanto que os Kagyu e os Nyingma salientam a
meditação é uma generalização superficial.
Linhagens Misturadas
Muitas linhagens de ensinamentos misturam e cruzam-se entre as cinco tradições tibetanas. A linhagem do Guhyasamaja Tantra, por exemplo, passou através do tradutor Marpa tanto à escola Kagyu como à Gelug. Embora os ensinamentos de mahamudra
(grande selo) sobre a natureza da mente sejam geralmente associados às
linhas Kagyu, as escolas Sakya e Gelug também os transmitem nas suas
linhagens. Dzogchen (a grande completude) é um outro sistema de
meditação da natureza da mente. Embora associado geralmente à tradição
Nyingma, é também proeminente na escola Karma Kagyu da época do terceiro
Karmapa e nas tradições de Drugpa Kagyu e de Bon. O quinto Dalai Lama
era um grande mestre, não só Gelug, mas também de dzogchen e Sakya, e
escreveu muitos textos em cada uma delas. Nós precisamos ter a mente
aberta para ver que as escolas tibetanas não se excluem mutuamente. Por
exemplo, muitos mosteiros Kagyu fazem pujas ao Guru Rinpoche, embora não
sejam Nyingma.
Diferenças
Uso de termos técnicos
Quais são as diferenças principais, então, entre as cinco tradições
tibetanas? Uma das diferenças principais diz respeito ao uso de termos
técnicos. O Bon analisa a maioria das mesmas coisas que o budismo, mas
usa palavras ou nomes diferentes para muitas delas. Mesmo dentro das
quatro tradições budistas, várias escolas usam os mesmos termos técnicos
com definições diferentes. Isto é realmente um grande problema quando
tentamos compreender o budismo tibetano em geral. Até dentro da mesma
tradição, autores diferentes definem os mesmos termos de uma maneira
diferente; e até o mesmo autor às vezes define os mesmos termos de uma
maneira diferente nas suas várias obras. Se não soubermos as definições
exactas que os autores estão usando para os seus termos técnicos,
podemos ficar extremamente confusos. Deixem-me dar alguns exemplos.
Os gelugpas dizem que a mente, significando a percepção dos objetos, é
impermanente, enquanto que os kagyupas e nyingmapas afirmam que é
permanente. As duas posições parecem ser contraditórias e mutuamente
exclusivas; mas, na verdade, não são. Para os gelugpas, “impermanente”
quer dizer que a percepção dos objectos muda de momento a momento, no
sentido em que os objectos dos quais nós estamos cientes mudam a cada
momento. Por “permanente,” os kagyupas e nyingmapas querem dizer que a
percepção dos objetos continua para sempre; a sua natureza básica
permanece, não sendo afetada por nada e, assim, nunca muda. Cada lado
concordaria um com o outro, mas porque usam os mesmos termos com
significados diferentes, parece que se contradizem completamente. Os
kagyupas e os nyingmapas diriam que a percepção individual de objetos
certamente percebe ou conhece objetos diferentes a cada momento;
enquanto que os gelugpas concordariam certamente que as mentes
individuais são contínuos, sem nenhum começo nem fim, de percepção de
objetos.
Outro exemplo é a expressão “surgir dependente.” Os gelugpas dizem
que tudo existe em termos de surgir dependente, significando que as
coisas existem como “isto” ou “aquilo” dependentemente das palavras e
dos conceitos serem capazes de as rotular validamente como “isto” ou
“aquilo”.” Os fenômenos conhecíveis são o que as palavras e os conceitos
usados para eles se referem. Nada existe do lado dos fenômenos
conhecíveis que, pelo seu próprio poder, lhes dá as suas existências e
identidades. Assim, para os gelugpas, a existência em termos do surgir
dependente é equivalente ao vazio: a ausência total de maneiras
impossíveis de existir.
Os kagyupas, por outro lado, dizem que o verdadeiro fenômeno último
está para além do surgir dependente. Parece que eles estão afirmando que
o último tem uma existência independente, estabelecida pelo seu próprio
poder, e não apenas uma existência que surge dependentemente. Esse não é
o caso. Os kagyupas, aqui, estão usando o “surgir dependente” em termos
dos doze elos do surgir dependente. O verdadeiro fenômeno último ou
mais profundo está para além do surgir dependente no sentido de que ele
não surge em dependência do não-apercebimento da realidade (da
ignorância). Os gelugpas também aceitariam essa afirmação. Eles estão
apenas usando o termo “surgir dependente” com uma definição diferente.
Muitas das discrepâncias nas afirmações das escolas tibetanas surgem
devido a tais diferenças nas definições de termos essenciais. Esta é uma
das fontes principais de confusão e má compreensão.
Ponto de Vista da Explicação
Outra diferença entre as tradições tibetanas é o ponto de vista a
partir do qual elas explicam os fenômenos. Segundo
Jamyang-kyentse-wangpo, um mestre Rimey (movimento não-sectário), os
gelugpas explicam do ponto de vista da base, isto é, do ponto de vista
dos seres ordinários, não-budas. Os sakyapas explicam do ponto de vista
do caminho, isto é, do ponto de vista daqueles que estão extremamente
avançados no caminho para a iluminação. Os kagyupas e os nyingmapas
explicam do ponto de vista do resultado, isto é, do ponto de vista de um
Buda. Como esta diferença é muito profunda e complicada , deixem-me só
demonstrar um ponto de partida para explorarmos a questão.
Do ponto de vista da base, só podemos focalizar ou na vacuidade ou na
aparência, numa de cada vez. Assim, os gelugpas até explicam a
meditação na vacuidade dos seres arya deste ponto da vista. Um arya
é um ser altamente realizado, que possui uma percepção direta,
não-conceptual do vazio. Os kagyupas e os nyingmapas enfatizam a
inseparabilidade das duas verdades, vacuidade e aparência. Do ponto de
vista de um Buda, não é possível falar apenas sobre o vazio ou apenas
sobre a aparência. Assim, eles falam do ponto de vista a partir do qual
tudo já é completo e perfeito. A apresentação Bon de dzogchen está de
acordo com este tipo de explicação. Um exemplo da apresentação Sakya -
do ponto de vista do caminho - é a afirmação de que a mente de luz clara
(a consciência mais sutíl de cada ser individual) é de felicidade
plena. Se isso fosse verdade ao nível da base, então a mente de luz
clara que se manifesta durante a morte seria de felicidade plena, mas
esse não é o caso. No caminho, contudo, nós fazemos com que a mente de
luz clara se torne numa mente de felicidade plena. Assim, quando os
sakyapas falam da mente de luz clara como felicidade plena, o fazem sob o
ponto de vista do caminho.
O Tipo de Praticante que é Enfatizado
Uma outra diferença surge do fato de que existem dois tipos de
praticantes: aqueles que progridem gradualmente por etapas e aqueles a
quem tudo acontece de uma só vez. Os gelugpas e os sakyapas falam
principalmente do ponto de vista daqueles que se desenvolvem por
estágios; os kagyupas, os nyingmapas e os bonpos, especialmente nas suas
apresentações da classe mais elevada do tantra, falam frequentemente do
ponto de vista daqueles a quem tudo acontece de uma só vez. Embora as
explicações daí resultantes possam dar a aparência de que cada lado
afirma apenas um modo de se progredir ao longo do caminho, a questão é
apenas qual é a que eles enfatizam nas suas explicações.
Abordagem à Meditação sobre a Vacuidade no Tantra Mais Elevado
Como já mencionei, todas as escolas tibetanas aceitam Madhyamaka como
o ensinamento mais profundo, mas as suas formas de compreender e de
explicar os diferentes sistemas budistas indianos de doutrinas
filosóficas diferem ligeiramente. A diferença manifesta-se mais
significativamente nas formas como elas compreendem e praticam
Madhyamaka no tantra mais elevado. Como isto também é um ponto muito
complexo e profundo, vamos agora tentar obter apenas uma compreensão
inicial.
A prática mais elevada do tantra leva-nos a alcançar a percepção
não-conceptual direta do vazio com a mente de luz clara mais sutíl.
Assim, dois componentes são necessários: a consciência da luz clara e a
percepção correta do vazio. Qual delas recebe a ênfase na meditação? Com
a abordagem da “ vacuidade-do-eu”, a ênfase na meditação está no vazio
como sendo o objeto percebido pela consciência da luz clara. A
vacuidade-do-eu significa a ausência total de naturezas auto-existentes
que dão aos fenômenos as suas identidades. Todos os fenômenos são vazios
de existirem desta forma impossível. Os gelugpas, a maioria dos
sakyapas e os drikung (drigung) kagyupas enfatizam esta abordagem;
embora as suas explicações sejam ligeiramente diferentes a respeito das
formas impossíveis como que os fenômenos são vazios de existir.
A segunda abordagem é enfatizar a meditação na mente de luz clara,
que é vazia de todos os níveis mais grosseiros da mente ou da
consciência. Neste contexto, a consciência de luz clara recebe o nome
“vacuidade-do-outro”; é vazia de todos os restantes níveis mais
grosseiros da mente. A vacuidade-do-outro é a abordagem principal dos
karma, drugpa, shangpa kagyupas, dos nyingmapas e de parte dos sakyapas.
Cada um, naturalmente, tem uma maneira ligeiramente diferente de
explicar e de meditar. Assim, uma das principais áreas de diferença
entre as escolas tibetanas é a forma como definem a vacuidade-do-eu e a
vacuidade-do-outro; se aceitam uma, a outra, ou ambas; e o que enfatizam
na meditação para obter a consciência de luz clara do vazio.
Não obstante esta diferença a respeito da vacuidade-do-eu e da
vacuidade-do-outro, todas as escolas tibetanas ensinam métodos para se
alcançar a consciência de luz clara ou, nos sistemas dzogchen, o seu
equivalente: rigpa, a pura consciência. Aqui, aparece uma outra
diferença importante . Os kagyupas, sakyapas e gelugpas não-dzogchen
ensinam a dissolução dos níveis mais grosseiros da mente ou da
consciência por estágios, até se alcançar a mente de luz clara. A
dissolução é realizada trabalhando com os canais de energia sutíl,
ventos, chakras, e assim por adiante, ou gerando estados de consciência
de felicidade progressivamente mais plena dentro dos sistemas de energia
sutil do corpo. Os nyingmapas, os bonpos e os praticantes das linhagens
dzogchen de Kagyupa tentam reconhecer e, desse modo, ter acesso ao
rigpa subjacente aos níveis mais grosseiros da consciência, sem ter de
primeiramente dissolver os níveis mais grosseiros. Não obstante, porque
no início do seu treinamento se engajaram em práticas com os canais de
energia, os ventos e os chakras, eles experienciam que os níveis mais
grosseiros da sua consciência se dissolvem automaticamente sem esforço
consciente adicional quando finalmente reconhecem e alcançam o rigpa.
Se a Vacuidade Pode Ser Indicada por Palavras
Outra diferença surge ainda sobre se a vacuidade pode ser indicada
por palavras e conceitos ou se está para além destes. Esta questão põe
em paralelo uma diferença na teoria da cognição. Os gelugpas explicam
que com a cognição sensorial não-conceptual, por exemplo a visao,
podemos perceber não só formas e cores, mas também objetos, como por
exemplo um vaso. Os sakyapas, os kagyupas e os nyingmapas afirmam que a
cognição visual não-conceptual percebe apenas formas e cores. Perceber
as formas e as cores como objetos, tal como um vaso, ocorre com a
cognição conceptual um nanosegundo depois.
De acordo com esta diferença sobre a cognição não-conceptual e conceptual, os gelugpas dizem que a vacuidade pode
ser indicada por palavras e conceitos: a vacuidade é aquilo que a
palavra “vacuidade” se está referindo. Os sakyapas, os kagyupas e os
nyingmapas afirmam que a vacuidade – do eu ou do outro – está para além
das palavras e conceitos. A posição deles concorda com a explicação
Chittamatra: as palavras e os conceitos para as coisas são construções
mentais artificiais. Quando você pensa “mãe,” a palavra ou o conceito
não é a sua mãe. A palavra é meramente um símbolo usado para representar
a sua mãe. Na verdade, você não pode pôr a sua mãe numa palavra.
Uso da terminologia de Chittamatra
De fato, os sakyapas, os kagyupas e os nyingmapas usam grande parte
do vocabulário de Chittamatra, até nas suas explicações sobre
Madhyamaka, particularmente em termos do tantra mais elevado. Os
gelugpas raramente o fazem. No entanto, quando os não-gelugpas usam
termos técnicos Chittamatra nas explicações Madhyamaka sobre o tantra
mais elevado, eles os definem diferentemente de quando eles os usam
estritamente em contextos de sutra de Chittamatra. Por exemplo, a alayavijnana
(consciência-fundação) é um dos oito tipos de consciência limitada no
sistema de Chittamatra de sutra. Nos contextos Madhyamaka dos tantras
mais elevados, a consciência-fundação é um sinonimo para a mente de luz
clara que continua mesmo depois da budeidade.
Sumário
Estas são algumas das principais áreas de diferenças sobre pontos
filosóficos profundos e de meditação. Nós poderíamos entrar em grandes
detalhes sobre estes pontos, mas penso que é muito importante nunca
perdermos de vista o fato de que cerca de oitenta por cento, ou mais,
das características das escolas tibetanas são as mesmas. As diferenças
entre as escolas são, na sua maior parte, devidas à forma como elas
definem os termos técnicos, o ponto de vista a partir do qual eles
explicam, e que abordagem à meditação usada para se obter uma
consciência de luz clara da vacuidade.
Práticas Preliminares
Ademais, o treinamento geral que os praticantes recebem em cada uma
das tradições é o mesmo. Ē só que os estilos de algumas das práticas são
diferentes. Por exemplo, a maioria dos kagyupas, nyingmapas e sakyapas
completam todo o conjunto das preliminares para a prática do tantra (as
cem mil repetições de prostrações, e assim por diante) como um grande
evento durante a parte inicial do treinamento, frequentemente com um
retiro separado. Os gelugpas tipicamente encaixam-nas, uma de cada vez,
nos seus programas, geralmente depois de terem acabado os seus estudos
básicos. No entanto, os praticantes de todas as tradições repetem o
conjunto todo das preliminares no início de um retiro de três anos.
Retiros de Três Anos
Num retiro de três anos, os kagyupas, nyingmapas e sakyapas
tipicamente treinam num número de práticas de meditação do sutra e
depois nas práticas rituais básicas das figuras búdicas principais das
suas linhagens, devotando vários meses sucessivos para cada prática.
Eles também aprendem a tocar os instrumentos musicais cerimoniais e a
fazer oferendas de torma esculpidas. Os gelugpas obtêm o mesmo
treinamento em meditação básica e ritual, encaixando cada prática, uma
de cada vez, nos seus programas, assim como eles fazem com as
preliminares. O retiro gelug de três anos focaliza-se na prática
intensiva de uma só figura búdica. Os não-gelugpas devotam normalmente
três ou mais anos a uma só prática do tantra apenas nos seus segundos ou
terceiros anos de retiro, e não no seu primeiro ano.
A participação na completa prática ritual monástica de qualquer
figura búdica requer que se tenha completado um retiro de vários meses,
envolvendo a repetição de vários mantras centenas de milhares de vezes.
Nós não podemos fazer uma auto-iniciação sem ter completado esta
prática. Se os gelugpas cumprem esta exigência fazendo apenas um retiro
de vários meses ou os non-gelugpas fazem-no como parte de um retiro de
três anos, a maioria dos monásticos de todas as tradições completa tais
retiros. Contudo, apenas os praticantes mais avançados de cada tradição
fazem retiros intensivos de três anos focalizados numa só figura búdica.
Conclusão
É muito importante mantermos um ponto de vista não-sectário no que
diz respeito às cinco tradições tibetanas de Budismo e de Bon. Como Sua
Santidade o Dalai Lama sempre enfatiza, estas diferentes tradições
compartilham o mesmo objetivo final: todas elas ensinam métodos para
alcançarmos a iluminação, para beneficiarmos os outros tanto quanto
possível. Cada tradição é igualmente eficaz em ajudar os seus
praticantes a alcançar este objetivo e, assim, elas se encaixam
harmoniosamente, mesmo que não seja de maneira simples. Ao fazermos um
estudo comparativo das cinco tradições, mesmo a nível introdutório, nós
aprendemos a apreciar os pontos fortes e únicos da nossa própria
tradição e a ver que cada tradição tem as suas próprias características
especiais. Se nós desejamos transformarmo-nos em budas e beneficiar a
todos, precisamos eventualmente aprender a gama completa das tradições
budistas e como todas elas se encaixam, de modo a sermos capazes de
ensinar pessoas de inclinações e de capacidades diferentes. Se não,
corremos o risco de “abandonar o Dharma,” que significa desacreditar um
ensinamento autêntico do Buda, incapacitando-nos, deste modo, de sermos
capazes de beneficiar aqueles a quem o Buda viu que os ensinamentos se
adequam.
É importante, no final, seguirmos uma só linhagem na nossa prática
pessoal. Ninguém podem alcançar o topo de um edifício tentando subir
cinco escadas diferentes simultaneamente. Não obstante, se as nossas
capacidades permitirem, estudar depois as cinco tradições ajuda-nos a
aprender os pontos fortes de cada uma. Isto, por sua vez, pode
ajudar-nos a ganhar claridade sobre estes pontos nas nossas próprias
tradições quando eles aqui recebem um tratamento menos elaborado. Isto é
o que Sua Santidade o Dalai Lama e todos os grandes mestres sempre
enfatizam.
É também muito importante vermos que para qualquer coisa que fazemos -
seja na esfera espiritual ou na esfera material - há talvez dez, vinte,
ou trinta maneiras diferentes de se fazer exactamente a mesma coisa.
Isto ajuda-nos a evitar o apêgo à maneira em como fazemos algo. Somos
capazes de ver a essência mais claramente, em vez de desenvolvermos a
atitude de que “esta é a maneira correcta de fazer as coisas, porque é
minha maneira correta !”
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Trabalho Espiritual
DEZ MANDAMENTOS PARA O TRABALHO ESPIRITUAL
1. Não se desconectar da matéria. O excesso de espiritualismo pode criar uma descompensação com graves prejuízos para a vida pessoal e material de uma pessoa. A matéria é tão importante quanto o espírito; ambos são matizes, graus da mesma manifestação. Nenhum dos dois pode prevalecer sobre o outro.
ANTÍDOTO: EQUILÍBRIO.
2. Não despertar os poderes antes
1. Não se desconectar da matéria. O excesso de espiritualismo pode criar uma descompensação com graves prejuízos para a vida pessoal e material de uma pessoa. A matéria é tão importante quanto o espírito; ambos são matizes, graus da mesma manifestação. Nenhum dos dois pode prevalecer sobre o outro.
ANTÍDOTO: EQUILÍBRIO.
2. Não despertar os poderes antes
da consciência. Os poderes estão a serviço da consciência. Não é
preciso buscá-los; quando chega o momento, eles surgem naturalmente.
Buscar o poder antes do saber é inverter a ordem natural do processo.
Para que sirvam a consciência, os poderes devem ser doados a partir de
algo além de nossa vontade.
ANTÍDOTO: EQÜANIMIDADE.
3. Não fixar-se em pessoas em vez de em suas informações. Você não monta uma casa em um túnel. Ele é só um meio para se chegar até ela. Quem depende de um mestre volta à infância psicólogica. Em um processo de iniciação ou terapêutico isso pode ser necessário, mas somente como uma fase a superar, e não como um estado onde parar.
ANTÍDOTOS: DISCERNIMENTO E MODERAÇÃO.
4. Não sentir excesso de autoconfiança. Quem se crê autosuficiente é uma presa fácil para os agentes do engano e não raro se vê envolvido por eles. Quem crê demais na própria capacidade está fadado a equivocar-se.
ANTÍDOTO: DESCONFIAR DE SI MESMO.
5. Não sentir-se superior. Nunca julgue que a própria linha de trabalho é superior às demais. Essa superioridade é a antítese do esoterismo, que afirma justamente a onipresença da consciência em todos os seres e caminhos. Essa postura desconecta uma pessoa das autênticas correntes da consciência amplificada, e é o ponto de partida para a via negra.
ANTÍDOTO: EQÜIDADE.
6. Não deixar-se levar por impulsos messiânicos. A vontade de salvar os demais é uma armadilha fatal. Sua tela de fundo é a vaidade e a insegurança. Essa fobia paranóica rompe com os canais de conexão com o mestre interior, bloqueia o processo de autoconhecimento e lança a espiritualidade numa espiral involuta, além de inibir o direito ao “livre-arbítrio de cada um”.
ANTÍDOTO: CONFIANÇA NA EXISTÊNCIA.
7. Não tomar medidas inconseqüentes. O entusiasmo pode levar uma pessoa a romper com seu círculo profissional e familiar sem necessidade. Com o “fluir” ou o “fechar os olhos e saltar” — axiomas que só deveriam ser usados em situações muito especiais —, os idiotas mais entusiasmados do mundo esotérico incentivam os recém-chegados a se arrebentarem logo na largada.
ANTÍDOTO: RESPONSABILIDADE SERENA.
8. Não agir com demasiada rigidez. Encantada com as novas informações que lhe ampliam a consciência, uma pessoa pode-se tornar intolerante. Ela tem a tentação de impor sua forma de pensar e seus modelos de conduta aos demais. Limitando sua capacidade de ver a partir de outras perspectivas, ela perde o acréscimo de consciência que havia conquistado.
ANTÍDOTO: TOLERÂNCIA E RELAXAMENTO.
9. Não se dispersar. Estudar ou praticar demasiadas coisas ao mesmo tempo sem aprofundar-se em nenhuma delas leva a uma falsa sensação de saber. Nessa atitude, pode-se passar uma vida inteira andando em círculos, enquanto se faz passar por um sábio.
ANTÍDOTO: CONCENTRAÇÃO.
10. Não abusar. Manipuladas, as informações espirituais servem de álibis ou justificativas convincentes para os piores atavismos. Usar essas informações para fins muito particulares é um crime. Ninguém profana impunemente o que pertence a todos.
ANTÍDOTO: RETIDÃO E INTEGRIDADE.
Equilíbrio, eqüanimidade, discernimento e moderação, eqüidade, tolerância e relaxamento, confiança na existência, responsabilidade serena, desconfiança de si mesmo, concentração, retidão e integridade são a grande proteção daquele que se aventura pelo mundo espiritual e esotérico. Por outro lado, quem se assegura dessas qualidades pode fazer o que quiser nesse campo que estará sempre num bom caminho.
(Texto Compartilhado por Luis Pereira, autor desconhecido)
ANTÍDOTO: EQÜANIMIDADE.
3. Não fixar-se em pessoas em vez de em suas informações. Você não monta uma casa em um túnel. Ele é só um meio para se chegar até ela. Quem depende de um mestre volta à infância psicólogica. Em um processo de iniciação ou terapêutico isso pode ser necessário, mas somente como uma fase a superar, e não como um estado onde parar.
ANTÍDOTOS: DISCERNIMENTO E MODERAÇÃO.
4. Não sentir excesso de autoconfiança. Quem se crê autosuficiente é uma presa fácil para os agentes do engano e não raro se vê envolvido por eles. Quem crê demais na própria capacidade está fadado a equivocar-se.
ANTÍDOTO: DESCONFIAR DE SI MESMO.
5. Não sentir-se superior. Nunca julgue que a própria linha de trabalho é superior às demais. Essa superioridade é a antítese do esoterismo, que afirma justamente a onipresença da consciência em todos os seres e caminhos. Essa postura desconecta uma pessoa das autênticas correntes da consciência amplificada, e é o ponto de partida para a via negra.
ANTÍDOTO: EQÜIDADE.
6. Não deixar-se levar por impulsos messiânicos. A vontade de salvar os demais é uma armadilha fatal. Sua tela de fundo é a vaidade e a insegurança. Essa fobia paranóica rompe com os canais de conexão com o mestre interior, bloqueia o processo de autoconhecimento e lança a espiritualidade numa espiral involuta, além de inibir o direito ao “livre-arbítrio de cada um”.
ANTÍDOTO: CONFIANÇA NA EXISTÊNCIA.
7. Não tomar medidas inconseqüentes. O entusiasmo pode levar uma pessoa a romper com seu círculo profissional e familiar sem necessidade. Com o “fluir” ou o “fechar os olhos e saltar” — axiomas que só deveriam ser usados em situações muito especiais —, os idiotas mais entusiasmados do mundo esotérico incentivam os recém-chegados a se arrebentarem logo na largada.
ANTÍDOTO: RESPONSABILIDADE SERENA.
8. Não agir com demasiada rigidez. Encantada com as novas informações que lhe ampliam a consciência, uma pessoa pode-se tornar intolerante. Ela tem a tentação de impor sua forma de pensar e seus modelos de conduta aos demais. Limitando sua capacidade de ver a partir de outras perspectivas, ela perde o acréscimo de consciência que havia conquistado.
ANTÍDOTO: TOLERÂNCIA E RELAXAMENTO.
9. Não se dispersar. Estudar ou praticar demasiadas coisas ao mesmo tempo sem aprofundar-se em nenhuma delas leva a uma falsa sensação de saber. Nessa atitude, pode-se passar uma vida inteira andando em círculos, enquanto se faz passar por um sábio.
ANTÍDOTO: CONCENTRAÇÃO.
10. Não abusar. Manipuladas, as informações espirituais servem de álibis ou justificativas convincentes para os piores atavismos. Usar essas informações para fins muito particulares é um crime. Ninguém profana impunemente o que pertence a todos.
ANTÍDOTO: RETIDÃO E INTEGRIDADE.
Equilíbrio, eqüanimidade, discernimento e moderação, eqüidade, tolerância e relaxamento, confiança na existência, responsabilidade serena, desconfiança de si mesmo, concentração, retidão e integridade são a grande proteção daquele que se aventura pelo mundo espiritual e esotérico. Por outro lado, quem se assegura dessas qualidades pode fazer o que quiser nesse campo que estará sempre num bom caminho.
(Texto Compartilhado por Luis Pereira, autor desconhecido)
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Seis Reinos
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Tulku Lobsang
Sejam como um yogi.
Sabem, meus amigos, ao dizer: ?Não se protejam?, é sabedoria louca. Mas se se protegem, isso é uma estupidez. Façam a vossa escolha! Querem ser loucos ou querem ser estúpidos? Os Yogis dizem: - ?Tu pensas que sou louco e eu penso que tu és louco. Mas eu estou louco de amor e tu estás louco de sofrimento?.
Se queremos ser felizes, também precisamos de ser loucos. A felicidade vem com a loucura. Mente louca, sem medo. Este é um grande método para libertar a mente. Libertem-se do medo e sintam-se seguros. Pensam que sou eu o louco? Ou são vocês que estão loucos?
Ha!Ha!
Tulku Lobsang
Sabem, meus amigos, ao dizer: ?Não se protejam?, é sabedoria louca. Mas se se protegem, isso é uma estupidez. Façam a vossa escolha! Querem ser loucos ou querem ser estúpidos? Os Yogis dizem: - ?Tu pensas que sou louco e eu penso que tu és louco. Mas eu estou louco de amor e tu estás louco de sofrimento?.
Se queremos ser felizes, também precisamos de ser loucos. A felicidade vem com a loucura. Mente louca, sem medo. Este é um grande método para libertar a mente. Libertem-se do medo e sintam-se seguros. Pensam que sou eu o louco? Ou são vocês que estão loucos?
Ha!Ha!
Tulku Lobsang
Mantraterapia
Mantraterapia
Recitamos
e meditamos sobre o mantra, que é o som iluminado, a fala da divindade, a união
do som com a vacuidade. Ele não possui uma realidade intrínseca, é simplesmente
a manifestação do som puro, experienciado simultaneamente com sua vacuidade.
Através do mantra, não nos apegamos mais à realidade da fala e do som
encontrados no cotidiano, mas os experienciamos como sendo vazios. Então, a
confusão do aspecto da fala de nosso ser é transformada na consciência
iluminada. A relação entre a fala, a respiração e o mantra pode ser melhor
demonstrada através do método pelo qual o mantra funciona. Um mantra é uma
série de sílabas cujo poder reside em seu som; através da pronunciação
repetida, pode-se obter controle sobre uma determinada forma de energia. A
energia do indivíduo está fortemente ligada à energia externa, e uma pode
influenciar a outra. É possível influenciar a energia externa, efetuando os
assim chamados "milagres". Tal atividade é realmente o resultado de
se ter controle sobre a própria energia, através do qual se obtém a capacidade
de comando sobre fenômenos externos.
Atendimento em Novo Hamburgo
(51)3037-2647/9175-8509
yeshedorje@zipmail.com.br
domingo, 15 de julho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Bodhitcharyavatara
CAMINHO PARA A ILUMINAÇÃO
GUIA PARA O MODO DE VIDA DO BODHISATTVA
Shantideva
coletivamente conhecido como lojong, ou "treinamento da mente". É uma categoria de
textos religiosos que tratam basicamente de duas preocupações fundamentais da obra
de Shantideva, o cultivo da mente altruísta do despertar e a geração de uma profunda
percepção sobre a natureza da realidade. A estrofe seguinte está agora quase
imortalizada por causa das reiteradas declarações do Dalai Lama que é a maior fonte de
sua inspiração: "Por tanto tempo quanto o espaço durar e por tanto tempo quanto os
seres vivos existirem, que eu possa até lá também esperar para dissipar a miséria do
mundo."
[Adaptado de A Arte de Lidar coma Raiva: O Poder da Paciência. Sua Santidade o Dalai Lama, tradução de
A. B. Pinheiro de Lemos, a partir da tradução para o inglês do Geshe Thubten Jinpa. Rio de Janeiro:
Campus, 2001. Pág. 15-17.]
preguiçoso a quem chamavam Bhusuku ("o que só sabe comer, dormir e defecar").
Todos achavam imoral alimentar esse "parasita" com as oferendas dos fiéis e decidiram
fazer tudo se livrar dele.
Tendo-se posto de acordo, os monges proclamaram que cada um por sua vez devia
pregar o Dharma. Pensavam assim que, para evitar ser humilhado, Bhusuku fugiria. Mas
não só isso não aconteceu como, apesar da insistência dos seus colegas impacientes
para o ridicularizar, ele recusou-se a pregar, argumentando a sua ignorância. O caso foi
levado ao abade, que decidiu que o monge recalcitrante se submetesse à regra.
No grande átrio do templo prepararam então um trono inusitadamente alto,
dispuseram um altar com numerosas oferendas e convocou-se a assembléia completa
dos monges.
À hora prevista convidaram o "parolo" para se sentar. De repente, sem que ninguém se
desse conta de como, Shantideva estava sentado em cima desse trono desmesurado.
Alguns começaram a se sentir pouco à vontade. Shantideva perguntou, "Devo comentar um texto conhecido ou devo dar um ensinamento inédito?" Os panditas olharam-se, surpreendidos e trocistas, e responderam, "A vossa aptidão a dormir e as vossas outras maneiras são realmente extraordinárias; o melhor é manter essa tradição específica. Improvisai-nos um discurso." Então, Shantideva expôs o Caminho da Iluminação (Bodhicharyavatara), também conhecido como Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva (Bodhisattvacharyavatara), menor que o seu Compêndio das Instruções e mais detalhado que o seu Compêndio dos Sutras.Enquanto ensinava, a assistência, estupefata, viu Manjushri majestosamente sentado no céu e concebeu uma grande fé. Quando chegou à estrofe Quando nem a realidade nem a não-realidade deixam de se apresentar à mente, então, na ausência de qualquer outra atitude possível, a mente liberta de conceitos tranqüiliza-se. [Capítulo 9, estrofe 34] Shantideva elevou-se lentamente no céu com Manjushri, cada vez mais alto, até se tornar invisível. No fim do Caminho para a Iluminação, só se ouvia a sua voz. Os panditas, cuja memória tinha a reputação de infalível, imediatamente puseram o seu discurso por escrito, mas uns encontraram-se com setecentas estrofes, outros com mil e outros com mais ainda. A versão dos panditas de Kashmir tinha nove capítulos e setecentas estrofes, a versão dos panditas de Magadha tinha dez capítulos e mil
estrofes. No seu discurso (capítulo 5, estrofes 105-106), Shantideva tinha dito que
lessem continuamente o Compêndio das Instruções ou então que se estudasse, como
abreviado, o Compêndio dos Sutras. Ambos os textos eram desconhecidos de todos. Dois panditas de memória infalível decidiram procurar Shantideva. Depois de muitas buscas encontraram-no no sul da
Índia, meditando junto a um relicário (stupa). Explicaram-lhe então longamente as
VI
razões da sua visita. Shantideva disse-lhes que a versão autêntica era a dos panditas de Magadha e que os dois compêndios estavam em Nalanda, nas traves do telhado da sua cela. Encantados, voltaram a Nalanda e encontraram no lugar indicado os dois manuscritos, escritos na fina caligrafia dos panditas. De novo voltaram para junto de Shantideva, que lhes explicou o sentido desses textos. A existência extraordinária de Shantideva progrediu sempre. Percorreu a Índia realizando milagres, salvou milhares de pessoas da fome multiplicando o alimento, curou doentes e feridos, deu fé aos incrédulos e viveu como um perfeito Bodhisattva. [Adaptado de O Caminho para a Iluminação — Bodhicaryavatara. Coleção Espiritualidades, série Budismo, sob a direção do Ogyen Kunzang Chöling. Escrito por Shantideva, tradução para o português por Filipe Valente Rocha e outros praticantes da escola do Budismo tibetano Ogyen Kunzang Chöling. Lisboa: Livros
e Leituras, 1998. Pág. 51-57. O texto foi gentilmente transcrito por Sherab Chötso.]
GUIA PARA O MODO DE VIDA DO BODHISATTVA
Shantideva
coletivamente conhecido como lojong, ou "treinamento da mente". É uma categoria de
textos religiosos que tratam basicamente de duas preocupações fundamentais da obra
de Shantideva, o cultivo da mente altruísta do despertar e a geração de uma profunda
percepção sobre a natureza da realidade. A estrofe seguinte está agora quase
imortalizada por causa das reiteradas declarações do Dalai Lama que é a maior fonte de
sua inspiração: "Por tanto tempo quanto o espaço durar e por tanto tempo quanto os
seres vivos existirem, que eu possa até lá também esperar para dissipar a miséria do
mundo."
[Adaptado de A Arte de Lidar coma Raiva: O Poder da Paciência. Sua Santidade o Dalai Lama, tradução de
A. B. Pinheiro de Lemos, a partir da tradução para o inglês do Geshe Thubten Jinpa. Rio de Janeiro:
Campus, 2001. Pág. 15-17.]
preguiçoso a quem chamavam Bhusuku ("o que só sabe comer, dormir e defecar").
Todos achavam imoral alimentar esse "parasita" com as oferendas dos fiéis e decidiram
fazer tudo se livrar dele.
Tendo-se posto de acordo, os monges proclamaram que cada um por sua vez devia
pregar o Dharma. Pensavam assim que, para evitar ser humilhado, Bhusuku fugiria. Mas
não só isso não aconteceu como, apesar da insistência dos seus colegas impacientes
para o ridicularizar, ele recusou-se a pregar, argumentando a sua ignorância. O caso foi
levado ao abade, que decidiu que o monge recalcitrante se submetesse à regra.
No grande átrio do templo prepararam então um trono inusitadamente alto,
dispuseram um altar com numerosas oferendas e convocou-se a assembléia completa
dos monges.
À hora prevista convidaram o "parolo" para se sentar. De repente, sem que ninguém se
desse conta de como, Shantideva estava sentado em cima desse trono desmesurado.
Alguns começaram a se sentir pouco à vontade. Shantideva perguntou, "Devo comentar um texto conhecido ou devo dar um ensinamento inédito?" Os panditas olharam-se, surpreendidos e trocistas, e responderam, "A vossa aptidão a dormir e as vossas outras maneiras são realmente extraordinárias; o melhor é manter essa tradição específica. Improvisai-nos um discurso." Então, Shantideva expôs o Caminho da Iluminação (Bodhicharyavatara), também conhecido como Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva (Bodhisattvacharyavatara), menor que o seu Compêndio das Instruções e mais detalhado que o seu Compêndio dos Sutras.Enquanto ensinava, a assistência, estupefata, viu Manjushri majestosamente sentado no céu e concebeu uma grande fé. Quando chegou à estrofe Quando nem a realidade nem a não-realidade deixam de se apresentar à mente, então, na ausência de qualquer outra atitude possível, a mente liberta de conceitos tranqüiliza-se. [Capítulo 9, estrofe 34] Shantideva elevou-se lentamente no céu com Manjushri, cada vez mais alto, até se tornar invisível. No fim do Caminho para a Iluminação, só se ouvia a sua voz. Os panditas, cuja memória tinha a reputação de infalível, imediatamente puseram o seu discurso por escrito, mas uns encontraram-se com setecentas estrofes, outros com mil e outros com mais ainda. A versão dos panditas de Kashmir tinha nove capítulos e setecentas estrofes, a versão dos panditas de Magadha tinha dez capítulos e mil
estrofes. No seu discurso (capítulo 5, estrofes 105-106), Shantideva tinha dito que
lessem continuamente o Compêndio das Instruções ou então que se estudasse, como
abreviado, o Compêndio dos Sutras. Ambos os textos eram desconhecidos de todos. Dois panditas de memória infalível decidiram procurar Shantideva. Depois de muitas buscas encontraram-no no sul da
Índia, meditando junto a um relicário (stupa). Explicaram-lhe então longamente as
VI
razões da sua visita. Shantideva disse-lhes que a versão autêntica era a dos panditas de Magadha e que os dois compêndios estavam em Nalanda, nas traves do telhado da sua cela. Encantados, voltaram a Nalanda e encontraram no lugar indicado os dois manuscritos, escritos na fina caligrafia dos panditas. De novo voltaram para junto de Shantideva, que lhes explicou o sentido desses textos. A existência extraordinária de Shantideva progrediu sempre. Percorreu a Índia realizando milagres, salvou milhares de pessoas da fome multiplicando o alimento, curou doentes e feridos, deu fé aos incrédulos e viveu como um perfeito Bodhisattva. [Adaptado de O Caminho para a Iluminação — Bodhicaryavatara. Coleção Espiritualidades, série Budismo, sob a direção do Ogyen Kunzang Chöling. Escrito por Shantideva, tradução para o português por Filipe Valente Rocha e outros praticantes da escola do Budismo tibetano Ogyen Kunzang Chöling. Lisboa: Livros
e Leituras, 1998. Pág. 51-57. O texto foi gentilmente transcrito por Sherab Chötso.]
terça-feira, 15 de maio de 2012
Pare de se sentir culpado
Claro que, quando erramos, temos que nos desculpar. Ser humilde e reconhecer os próprios erros faz parte da vida. Mas, muitas vezes, nos sentimos culpadas sem termos feito nada errado! Veja como se livrar desse sentimento e sinta um alívio instantâneo
Você já reparou que a grande maioria das pessoas vive às voltas com a culpa? Culpa por não dar a atenção devida ao amigo. Culpa por não acolher tal pessoa. Culpa por ter (ou não) tomado tal atitude… Os motivos variam, mas lá está a culpa sempre nos atormentando.
Pois eu digo que a paz interior só será conquistada se você ouvir a própria alma e der espaço para o bom-senso. A culpa, minha gente, assim como a tristeza, a angústia, a pena e todas as sensações ruins, são puro sentimentalismo.
A sociedade nos obriga a sermos bonzinhos, e sofremos com essa imposição. A culpa traz dor e desconforto. Significa que estamos agindo inadequadamente, dando uma farta atenção às cobranças infundadas que são feitas nas nossas vidas. “Você tem que ser assim, você tem que fazer assado”, nos dizem.
Por exemplo: temos que fazer algo pelo outro porque ele é coitadinho. A ameba do “tem que” aparece e diz que você “tem que ajudar’. Ela pressiona, traz a culpa e você acaba cedendo. Veja bem: culpa nada tem a ver com a sua vontade, que é genuína e vem da alma.
Quando a gente dá ouvidos a essas amebas perdemos o entusiasmo, bloqueando nossos caminhos. Ora, dê uma basta nisso. Lembre-se: você não é obrigada a fazer nada que sua alma não queira de fato.
Você notará um alívio ao ficar em sintonia com sua alma. Não importa o que dizem a seu respeito. Você está bem consigo mesma. Com o tempo, sentirá ainda mais coragem pra ser autêntica com as pessoas. Pare de pedir desculpas e assuma-se. O respeito por si mesma fará você aperfeiçoar suas habilidades sem sofrer.
Agora você pode perguntar: como ficar do lado da minha alma? Simplesmente sendo você mesma! Confie no próprio taco, não faça tipos para agradar ninguém, faça só o que gosta. Quem não está bem consigo mesmo, não vai pra frente. Quem está, se realiza.
Meu recado é: ouça a voz que vem do seu coração. Não subestime sua intuição. O desafio é administrar a nossa alma de um lado e, do outro, tudo o que se aprendeu e as cobranças. Imponha-se! Assim, você encontrará a paz e se libertará das falsas culpas.
(Gasparetto)
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