terça-feira, 10 de junho de 2008


"É melhor lançar-se à luta em busca do triunfo, mesmo expondo-se ao insucesso, que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito... E vivem nesta penumbra cinzenta sem conhecer vitória nem derrota!"

sábado, 7 de junho de 2008


Muita gente boa dá um duro danado para ter riquezas materiais.Depois, luta e dá um duro danado para manter essa riqueza e para proteger o que alcançou.No meio de tanta luta e de tanto trabalho, é fácil perder de vista o fato de que a riqueza material só lhe servirá nesta vida.Quanta riqueza material você acha que os grandes líderes espirituais deixaram para seus herdeiros?Eles se deram conta de que a liberdade da mente e do corpo eram o bem maior que podiam legar.Deram-se conta de que não é necessário possuír muito para realizar muito.Deixaram como herança a forma como viveram suas vidas. As coisas pelas quais lutamos podem nos trazer conforto e alegria, mas podem também nos escravizar.Nossos desejos e realizações no domínio material não tem o menor significado no reino espiritual.Todos os seres humanos deveriam usufruír do conforto e dos bens que lhes permitissem desenvolver seu potencial, mas sem perderem de vista o que é realmente essencial.Pense nisso

sexta-feira, 6 de junho de 2008


Cerveja, cigarro e Happy Hour


Osho

Eu sempre senti a necessidade de uma pequena recompensa no final do dia: umas cervejas, cigarros ou drogas. Agora nenhuma destas coisas trazem qualquer satisfação, entretanto o desejo por alguma coisa, alguma forma de gratificação, continua. O que é este desejo e o que irá satisfazê-lo?

Nada irá satisfazê-lo. Existe um mecanismo sutil de desejo que deve ser entendido. Ele funciona desta maneira: o desejo coloca uma condição em sua felicidade. "Eu irei ser feliz se eu puder ter este carro, esta mulher, esta casa." O preenchimento do desejo remove aquela condição sobre a sua felicidade. No seu alívio você se sente bem. Na verdade tudo o que você fez foi remover uma obstrução desnecessária à sua felicidade, mas não muito tempo depois você se encontra pensando: "Se eu puder criar aquela obstrução novamente, depois removê-la novamente, o alívio que eu senti ao removê-la da última vez me fará sentir tão bem quanto antes." E assim é que os desejos, mesmo quando nós os preenchemos, conduzem novamente à criação de novos desejos.

Você está acompanhando? Primeiro você faz uma condição. Você diz: "A menos que eu conquiste esta mulher eu não serei feliz. Eu só posso ser feliz com esta mulher." Agora você começa a lutar para ter esta mulher. Quanto mais difícil, mais você se torna entusiasmado, exaltado.

Quanto mais difícil, mais você é desafiado. Quanto mais difícil, mais você coloca todo o seu ser em jogo; você está pronto para arriscar. E naturalmente mais esperança surge e mais desejo de possuir a mulher. É muito árduo, é muito difícil. Tem que ser algo magnífico; é por isto que é tão árduo, é por isto que é tão difícil. Você persegue e persegue e persegue e um dia você consegue a mulher. No dia que você consegue a mulher a condição é removida: "Se eu tiver a mulher então eu serei feliz" - você colocou esta condição em primeiro lugar. Agora você tem a mulher, você se sente aliviado. Agora não mais existe perseguição, você chegou, o resultado está em sua mão, você se sente bem - bem por causa do alívio.

Um dia eu vi Mulla Nasruddin caminhando, praguejando e em grande sofrimento. Eu perguntei a ele: "O que aconteceu? O seu estômago está doendo ou você tem uma dor de cabeça ou qualquer coisa? Qual é o problema? Você parece em uma tal agonia."
Ele disse: "Nada. Os sapatos que eu estou usando são muito pequenos."
"Mas então, por que você está usando eles?"
Ele disse: "Este é o único alívio que eu tenho no final do dia - quando eu tiro os meus sapatos. Este é o único prazer que eu tenho, assim eu não posso abandonar estes sapatos. Eles são um número menor, é realmente um inferno, mas à noite é o paraíso. Quando eu vou para casa e tiro os meus sapatos e caio no sofá, eu digo que eu me liberei. É tão belo."

Isto é o que você está fazendo. Você cria sofrimento, você cria angústia, perseguição, agitação e então um dia você chega em casa e tira os seus sapatos e você diz: "Maravilhoso, isto é maravilhoso! Eu me liberei." Mas quanto tempo isto pode durar? O alívio dura apenas uns momentos. Então novamente você está desejando ardentemente.

Agora esta mulher não tem utilidade porque você a conquistou. Você não pode criar a condição novamente. Você nunca pode dizer novamente: "Se eu tiver esta mulher eu serei feliz," porque ela já está com você. Agora você começa a olhar em volta para a mulher de alguém: "Se eu tiver esta mulher..." Agora você conhece o truque - que primeiro você tem que colocar uma condição em sua felicidade, então você tem que seguir a condição desesperadamente, e então um dia o alívio chega.

Agora isto é inútil. Um homem de entendimento verá que não existe necessidade de colocar nenhuma condição. Você pode ser incondicionalmente feliz. Por que andar com sapatos pequenos e sofrer apenas para ter alívio no final? Por que não ter alívio todo o tempo? Mas então você não irá senti-lo - este é o problema. Para senti-lo você precisa de contraste. Você será feliz mas você não irá senti-lo.

E esta é a definição de um homem realmente feliz: um homem realmente feliz é alguém que não sabe nada de felicidade, que nunca ouviu falar disto; que é tão feliz, tão incondicionalmente feliz, como pode ele saber que é feliz? Somente pessoas infelizes dizem: "Eu sou feliz, as coisas estão indo maravilhosamente." Estas são pessoas infelizes. A pessoa feliz não sabe nada sobre felicidade. A felicidade está simplesmente lá, ela está sempre lá. Ela é como respirar.

Você não se sente muito alegre com a respiração. Então faça apenas uma coisa: tampe o seu nariz. Faça alguns exercícios de ioga e reprima a sua respiração dentro e continue reprimindo e continue reprimindo. Agora a agonia surge. E você continua reprimindo. Seja um discípulo iogue realmente - continue reprimindo. E então ela estoura e existe um grande prazer. Mas isto é loucura - mas é isto o que todo mundo está fazendo. É por isto que você espera pelo resultado à noite.

A felicidade está aqui e agora; ela não precisa de condição. A felicidade é natural. Apenas veja isto. Não crie condições em sua felicidade. Permaneça feliz por nenhuma razão. Não existe nenhuma razão para achar alguma causa para ser feliz. Apenas seja feliz.

Se você não pode ser feliz, então não coloque tais condições impossíveis que a torne difícil. Então Mulla está certo - apenas uma pequena coisa. Eu entendo. Ele é mais inteligente do que você acha que ele é. Apenas um simples truque - usando sapatos um número menor - um truque tão pequeno, ninguém pode impedi-lo de fazer isto e à noite você é feliz. Apenas pequenos truques, crie pequenos truques e seja tão feliz quanto você queira.

Mas você diz: "Eu serei feliz somente quando esta casa maravilhosa for minha." Agora você está colocando uma grande condição. Isto pode levar muitos anos e você estará cansado e exausto, e no momento que você atingir o palácio de seus desejos, você pode estar perto da morte. E isto que acontece. Você gastou toda a sua vida e a sua casa maravilhosa se tornará a sua sepultura. Você diz: "A menos que eu tenha um milhão de dólares, eu não serei feliz." E então você tem que trabalhar e desperdiçar toda a sua vida. Mulla Nasruddin é muito mais inteligente: faça pequenas condições e tenha tanta felicidade quanto você queira.

E se você compreende, então não há necessidade de colocar nenhuma condição. Apenas veja o ponto - que as condições não criam a felicidade, elas somente dão alívio. Mas o alívio não pode ser permanente; nenhum alívio pode nunca ser permanente. Ele dura somente por alguns momentos.

Você não observou isto novamente e novamente? Você queria comprar um carro e agora o carro está na sua garagem e você está lá, muito, muito feliz. Quanto tempo isto dura? Amanhã ele é um carro velho, um dia de idade. Dois dias depois, ele tem dois dias de idade e toda a vizinhança o viu e todos o apreciaram e acabou! Agora ninguém fala dele. É por isto que as companhias de carros têm que continuar colocando novos modelos a cada ano, assim você pode ter novas condições. As pessoas continuam ansiando por coisas apenas para ter alívio, e alívio está disponível. Você ouviu a história?

Um mendigo estava sentado embaixo de uma árvore e o carro de um homem rico quebrou. O motorista o estava arrumando e o homem rico saiu e o mendigo estava descansando em baixo da árvore. Estava fresco e ensolarado e belo, e o homem rico também veio e se sentou ao lado do mendigo e disse: "Por que você não trabalha?"
O mendigo perguntou: "Para quê?"
O homem rico ficou um pouco irritado e disse: "Quando você tem dinheiro você pode ter um grande saldo no banco."
O mendigo perguntou novamente: "Para quê?"
O homem rico ficou ainda mais irritado. Ele disse: "Para quê? Assim você pode se aposentar na velhice e descansar."
"Mas," o mendigo disse: "Eu estou descansando agora! Por que esperar pela velhice? E fazer todas estas coisas sem sentido? - ganhar dinheiro e fazer um saldo bancário e então descansar. E você não pode ver? - Eu estou descansando agora! Por que esperar?"

Por que esperar pela noite? E por que esperar pela cerveja? Por que não beber água e desfrutá-la enquanto você a está bebendo?

Você ouviu a história de Jesus onde ele transformou água em vinho? Os cristãos não a entenderam. Eles pensam que ele realmente transformou água em vinho. Isto não é verdade. Ele deve ter ensinado um segredo para seus discípulos que eu estou ensinando para você. Ele deve ter lhes dito: "Beba-a tão prazerosamente que a água se torna vinho."

Você pode beber água tão prazerosamente que ela quase o intoxica. Tente! Apenas água e pode intoxicá-lo. Depende de você. Não depende da cerveja ou do vinho. E se você não entende isto, pergunte para algum hipnotizador - ele sabe. Mesmo se água é dada para alguém que foi hipnotizado e lhe é dito que é vinho, ele ficará intoxicado - com água.

Agora os médicos sabem a respeito do placebo e algumas vezes os resultados são muito intrigantes. Em um hospital eles estavam fazendo algumas experiências. Para um grupo de vinte pacientes da mesma doença foi dado medicamento e para outros vinte com a mesma doença, foi dado somente água - apenas para ver se a água pode funcionar. Nem os médicos nem os pacientes sabem qual é a água e qual é o remédio, porque se o médico souber, então inclusive seu comportamento irá mudar. Dando água, ele não irá dá-la tão seriamente e isto fará com que alguma suspeita surja no paciente. Assim nem o médico nem o paciente - ninguém sabe. O conhecimento é mantido em um cofre, trancado.

E o milagre é que o mesmo número de pacientes são auxiliados pela água como pelo medicamento. Dos vinte, dezessete pessoas ficam saudáveis na segunda semana, de ambos os grupos. E a coisa mais miraculosa é que aqueles que tomaram a água permaneceram saudáveis por mais tempo do que os que estavam tomando remédio. As pessoas que estavam tomando o remédio real começaram a voltar mais cedo, depois de umas poucas semanas.

O que aconteceu? Por que a água ajuda tanto? A idéia de que é um remédio ajuda e não o remédio. E porque a água é pura água, ela não pode prejudicar; o medicamento irá prejudicar. É por isto que as pessoas que receberam o medicamento real começaram a voltar. Eles começaram a criar algum novo desejo, alguma nova doença, alguns novos problemas... porque nenhum medicamento pode ficar sem afetar o seu sistema de um modo ou de outro. Ele irá ter as suas reações. A água não pode ter nenhuma reação. Isto é pura hipnose.

Você pode beber água com tamanho gosto, que ela se toma vinho. Você vê as pessoas do Zen bebendo chá com tal cerimônia e ritual, com tamanha consciência. Então mesmo o chá se torna alguma coisa fenomenal. O chá comum é transformado. Ações comuns podem ser transformadas - uma caminhada matinal pode ser transformada. E se uma caminhada matinal não pode ser intoxicante então há algo de errado com você. Apenas olhar uma rosa pode ser intoxicante. E se isto não pode intoxicá-lo, então nada pode intoxicá-lo. Apenas olhar nos olhos de uma criança pode ser intoxicante.
Aprenda a viver o momento prazerosamente. Não procure pelos resultados; não existe nenhum. A vida não está indo a nenhum lugar, ela não tem um fim. Viver não é um meio para algum fim. A vida é somente aqui e agora. Viva-a. Viva-a totalmente, viva-a conscientemente, viva-a prazerosamente - e você estará preenchido.

O preenchimento não deve ser adiado, caso contrário você nunca ficará preenchido. O preenchimento tem que ser agora - agora ou nunca.


Fonte: Livro – Osho, O livro da cura
Tradução: Sw Dhyan Yukti
Editora: Shanti

quarta-feira, 4 de junho de 2008


A coragem de estar só e silencioso

Querido Osho,
Eu sempre estou com medo de estar só, porque quando estou só, começo a querer saber quem eu sou. Parece que se eu investigar mais fundo, irei descobrir que eu não sou a pessoa que acreditei ser nos últimos vinte e seis anos, mas um ser presente no momento do nascimento e talvez também no momento anterior. Por alguma razão isso me assusta completamente. Parece um tipo de insanidade e faz com que eu me perca nas coisas externas a fim de me sentir mais segura.
Osho, quem eu sou, e por que o medo?

Surabhi, não é apenas o seu medo, é o medo de todo mundo. Porque ninguém é aquilo que deveria ser pela própria existência.
A sociedade, a cultura, a religião, a educação, todos têm conspirado contra inocentes crianças.
Eles têm todo o poder – a criança é indefesa e dependente. Assim, tudo o que querem fazer com ela, eles dão um jeito e fazem.
Eles não permitem que criança alguma se desenvolva para o seu destino natural.
Todo o esforço deles é para fazer dos seres humanos, utilidades. Quem sabe, se deixarmos uma criança desenvolver por si mesma, se ela terá ou não alguma utilidade para os interesses velados. A sociedade não está preparada para correr esse risco. Ela agarra a criança e começa a moldá-la em alguma coisa necessária para a sociedade.
Sob certo sentido, ela mata a alma da criança e lhe dá uma falsa identidade, para ela nunca ver a sua alma, o seu ser.
A falsa identidade é um substituto. Mas esse substituto é útil apenas na mesma multidão que deu essa falsa identidade a você. No momento em que você está só, o falso começa a se desmontar e o que é verdadeiro e foi reprimido começa a se expressar.
Por isso o medo de estar só.
Ninguém quer estar só. Todo mundo quer pertencer a uma multidão – e não apenas uma multidão, mas a muitas multidões. A pessoa pertence a uma multidão religiosa, a um partido político, a um Rotary Club... E existem muitos outros pequenos grupos para se pertencer também.
É preciso estar apoiado vinte e quatro horas por dia, porque o falso, sem apoio, não consegue ficar de pé. No momento em que estiver só, começa a sensação de uma loucura estranha.
Surabhi, é sobre isto que você está perguntando – porque por vinte e seis anos você acreditou ser alguém, e então, de repente, num momento de solidão, você começou a perceber que você não era aquilo. Isso cria medo: então quem você é?
E vinte e seis anos de repressão... Levará algum tempo para que o verdadeiro se expresse.
O intervalo entre os dois tem sido chamado pelos místicos de ‘a noite escura da alma’ – uma expressão muito apropriada. Você não é mais o falso, e você ainda não é o verdadeiro. Você está no limbo, você não sabe quem você é.
Particularmente no Ocidente – e Surabhi é ocidental – o problema é ainda mais complicado, porque eles não desenvolveram nenhuma metodologia para descobrir o verdadeiro, o mais cedo possível, de modo que a noite escura da alma possa ser encurtada.
O Ocidente nada conhece a respeito de meditação.
E meditação é apenas um nome para o estar só, silencioso, esperando pela manifestação do verdadeiro. Não é um ato, é um relaxamento silencioso – porque qualquer coisa que você faça tem sua origem na sua falsa personalidade. Tudo o que você fez por vinte e seis anos teve sua origem ali; este é o seu velho hábito.
Hábitos são duros de morrer.

Havia um grande místico na Índia, Eknath. Ele estava indo para uma peregrinação santa com todos os seus discípulos – seriam uma jornada de três a seis meses.
Um homem chegou até ele, jogou-se a seus pés e disse, ‘Eu sei que não sou merecedor. Você sabe bem disso, todo mundo me conhece. Mas eu sei que a sua compaixão é maior do que o meu não-merecimento. Por favor, aceite-me também como um dos membros de seu grupo que está indo para a peregrinação santa. ‘
Eknath disse, ‘Você é um ladrão – e não apenas um ladrão comum, mas um ladrão mestre. Você nunca foi pego e todos sabem que você é um ladrão. Eu certamente me sentiria bem levando você comigo, mas eu também tenho que pensar nas outras cinqüenta pessoas que estão indo comigo. Você terá que me fazer uma promessa – e eu não estou pedindo por nada mais que, apenas durante aquele tempo de três a seis meses em


que nós estivermos na peregrinação, você não roube. Depois disso, será sua a decisão. Uma vez que nós tenhamos voltado para casa, você estará livre de sua promessa. ‘
O homem disse, ‘Eu estou absolutamente pronto para prometer, e eu estou imensamente agradecido pela sua compaixão.’ As outras cinqüenta pessoas ficaram desconfiadas. Confiar em um ladrão...
Mas elas não podiam dizer coisa alguma ao Eknath. Ele era o mestre.
A peregrinação começou e desde a primeira noite aconteceram problemas. Na manhã seguinte havia um caos – o casaco de alguém tinha sumido, assim como a camisa de um outro, e também o dinheiro de outro.
E todo mundo estava gritando, ‘Onde está o meu dinheiro?’ E todos eles foram contar ao Eknath, ‘Nós estávamos desconfiados desde o começo em que você trouxe esse homem consigo. Um hábito de uma vida inteira...’
Mas eles começaram a procurar e então descobriram que as coisas não tinham sido roubadas. O dinheiro de alguém tinha sumido, mas foi encontrado na sacola do outro. O casaco de alguém estava faltando, mas foi encontrado na mala do outro. Tudo foi encontrado, mas era um problema desnecessário – todas as manhãs!
E ninguém conseguia conceber – qual poderia ser o sentido disso? E certamente não era o ladrão, porque nada estava sendo roubado.
Na terceira noite, Eknath permaneceu acordado para ver o que acontecia. No meio da noite, o ladrão – devido ao seu hábito – acordava e começava a tirar as coisas de um lugar e colocar no outro. Eknath interrompeu-o e disse, ‘O que você está fazendo? Você se esqueceu de sua promessa?’
Ele disse, ‘Não, eu não esqueci minha promessa. E eu não estou roubando coisa alguma, mas eu não lhe prometi que não iria mudar as coisas de um lugar para o outro. Depois dos seis meses eu terei que ser um ladrão novamente; isto é apenas para praticar. E você deve entender – isto é um hábito de uma vida inteira, e você não consegue abandoná-lo num estalar de dedos. Dê-me um tempo. Você devia entender o meu problema também. Por três dias eu não roubei uma simples coisa – isso é como jejuar! Isto é apenas um substituto, eu estou me mantendo ocupado.
‘Este é o meu horário de trabalho, no meio da noite, assim é muito difícil para eu ficar simplesmente deitado na cama acordado. E tantos idiotas dormindo... E eu não estou fazendo mal a ninguém. De manhã eles encontrarão as suas coisas.’
Eknath disse, ‘Você é um homem estranho. Você vê que toda manhã existe um caos e uma ou duas horas são desperdiçadas desnecessariamente para se encontrar as coisas – onde você as colocou, de que malas elas foram tiradas. Todo mundo tem que abrir tudo e perguntar aos outros... ‘A quem isto pertence?’
O ladrão disse, ‘Essa concessão você tem que me fazer.’
Surabhi, vinte e seis anos de uma falsa personalidade imposta por pessoas que você amou, que você respeitou... E eles não estavam fazendo alguma coisa intencionalmente ruim para você. A intenção deles era boa, apenas a consciência deles era nula. Elas não eram pessoas conscientes – seus pais, seus professores, seus sacerdotes, seus políticos – elas não eram pessoas conscientes, eles eram inconscientes.
E mesmo uma boa intenção nas mãos de uma pessoa inconsciente pode se tornar venenosa.
Assim, sempre que você está só, surge um medo profundo, porque de repente o falso começa a desaparecer.



E o verdadeiro precisa de um certo tempo. Você o perdeu há vinte e seis anos. Você precisará ter alguma consideração com o fato de que terá que fazer uma ponte sobre esse intervalo de vinte e seis anos.
Nesse medo – de que ‘eu estou perdendo a mim mesma, meu senso, minha sanidade, minha mente – tudo’, porque o ‘eu’ que lhe foi dado pelos outros consiste em todas essas coisas – parece que você vai enlouquecer. Você começa imediatamente a fazer alguma coisa simplesmente para se manter ocupada. Se não houver pessoas, pelo menos existe alguma ação. Assim o falso permanece ocupado e não começa a desaparecer.

Por isso as pessoas têm a maior dificuldade nos feriados de finais de semana. Por cinco dias elas trabalham, esperando que no final de semana possam relaxar. Mas o final de semana é o pior tempo em todo o mundo – mais acidentes acontecem nos finais de semana, mais pessoas se suicidam, mais assassinatos, mais roubos, mais estupros. Estranho... E essas pessoas estavam ocupadas por cinco dias e não havia problema algum. Mas o final de semana, de repente, lhes dá uma escolha, ou estar ocupado com alguma coisa ou relaxar, mas relaxar é espantoso; a falsa personalidade desaparece.
Mantenha-se ocupado, faça alguma coisa estúpida. As pessoas estão correndo para as praias, para-choques colados nos para-choques, num trânsito com filas quilométricas. E se você lhes perguntar para onde elas estão indo, elas estão indo para longe da multidão – e toda a multidão está indo com elas. Elas estão indo procurar um espaço solitário e silencioso – todas elas.
Na verdade, se elas permanecessem em casa, elas estariam mais solitárias e silenciosas – porque todos os idiotas foram em busca de um lugar solitário e silencioso. E eles estão correndo como loucos, porque dois dias se acabarão logo e eles têm que chegar lá – não pergunte aonde!
E nas praias você vê... Estão tão apinhadas de gente, nem mesmo os shoppings estão tão lotados. E muito estranhamente, as pessoas estão se sentindo muito à vontade, tomando um banho de sol. Dez mil pessoas numa pequena praia tomando um banho de sol, relaxando.
A mesma pessoa na mesma praia, sozinha não seria capaz de relaxar. Mas, você sabe, milhares de outras pessoas estão relaxando, todas ao redor dela. As mesmas pessoas estiveram nos escritórios, as mesmas pessoas estiveram nas ruas, estiveram nos shoppings, e agora as mesmas pessoas estão na praia.
A multidão é essencial para o falso ‘eu’ existir.
No momento em que ele está só, você começa a ficar nervosa.
É aqui que se deve compreender um pouco a respeito de meditação.
Não fique preocupada, porque aquilo que pode desaparecer, merece desaparecer. Não faz sentido agarrar-se àquilo – aquilo não é seu, aquilo não é você.
Quando o falso tiver ido, você é aquele ser fresco, inocente e puro que crescerá em seu lugar.
Nenhuma outra pessoa pode responder a sua pergunta ‘Quem sou eu?’ – Você saberá.
Todas as técnicas de meditação são uma ajuda para destruir o falso. Elas não lhe dão o verdadeiro – o verdadeiro não pode ser dado.
Aquilo que pode ser dado não pode ser verdadeiro.
Você já tem o verdadeiro; apenas o falso tem que ser jogado fora.
Isso pode ser dito de uma maneira diferente: o mestre lhe tira coisas que você de fato não tem e lhe dá aquilo que você já tem.
Meditação é apenas uma coragem para estar só e silenciosa.
Aos poucos, você começa a sentir uma qualidade em si mesma, uma nova vida, uma nova beleza, uma nova inteligência – que não é tomada de empréstimo de ninguém, que cresce dentro de você, que tem raízes na sua existência.
E se você não for uma covarde, começará a fruir, a florescer.
Somente o bravo, o corajoso, as pessoas que têm firmeza, podem ser religiosas. Não os freqüentadores de igrejas – esses são covardes. Não os hindus, não os muçulmanos, não os cristãos – eles são contra a busca. A mesma multidão, eles estão tentando tornar suas falsas identidades mais consolidadas.
Você nasceu. Você veio ao mundo com vida, com consciência, com uma tremenda sensitividade. Apenas olhe uma pequena criança – veja os seus olhos, o frescor. Tudo aquilo foi coberto por uma falsa personalidade.
Não há necessidade alguma de ter medo.
Você pode perder apenas aquilo que tem que ser perdido. E é bom que perca logo – porque quanto mais tempo ficar, mais forte aquilo se torna.
E ninguém sabe coisa alguma a respeito do amanhã.
Não morra antes de realizar o seu autêntico ser.
Somente umas poucas pessoas são afortunadas, aquelas que viveram com ser autêntico e que morreram com ser autêntico - porque elas sabem que a vida é eterna e que a morte é uma ficção.

Osho – Beyond Enlightenment – capítulo 18
Tradução: Sw. Bodhi Champak

domingo, 1 de junho de 2008


O que é o homem exatamente ?

"O homem é um mero talvez, uma possibilidade, um potencial, um tornar-se, uma vontade. O homem não é, ainda. O homem ainda tem que ser. Essa é a agonia do homem e o seu êxtase também. A besta é, e nenhum crescimento lhe é possível. É um produto acabado. Na besta não há qualquer possibilidade de procura, de busca, de ser. Nesse caso, não há qualquer liberdade. A besta está em absoluta escravidão. A besta vive e morre sem saber que ela vive e morre. A besta é, mas ela não sabe que ela é. O homem é e sabe que ele é, mas não sabe quem ele é. O homem é um processo constante. Alguma coisa está sempre acontecendo, está sempre na beira do acontecimento. O homem é uma excitação, uma aventura, uma peregrinação. Nenhuma besta pode sequer fugir de seu destino. Ele é sempre predeterminado. A besta tem um destino absoluto. Nada acontecerá de outro jeito. A besta é pré-programada. O homem não tem qualquer programa prévio, ele é simplesmente uma abertura. Mil e uma coisas são possíveis. Por isso surge a ansiedade: 'Ser isso ou ser aquilo? Ir para a direita ou para a esquerda? Viver desse jeito ou viver daquele jeito? E o que é certo? E o que irá me satisfazer?' A cada momento o homem tem que decidir. E, obviamente, quando você decide, você treme. Há sempre a possibilidade de você escolher errado. Na verdade, as possibilidades de escolher errado são maiores. Em mil e um caminhos, apenas um será o certo. Por isso uma grande tremedeira e angústia: "Eu vou fazer isso? Sendo eu mesmo, eu serei bem sucedido? Ou isso vai ser apenas um grande e inútil esforço e ao final terei só frustração e fracasso? Eu serei capaz de conhecer vida abundante? Essa vida se tornará uma base para uma vida ainda maior que virá? Ou isso nada mais é do que uma morte? Existe apenas um túmulo no final, ou alguma coisa mais?' O homem é um ser aberto. Tudo é possível, mas nada é certo. A besta é absolutamente certa. Ela tem uma definição. O homem não tem definição. Assim quando você me pergunta: O que é o homem exatamente? você está formulando errado a pergunta. O homem não é algo exatamente. Ele é apenas uma vaga vontade, um sonho muito muito vago de coisas que podem ser, de coisas que podem ser possíveis, que podem não ser possíveis. O homem é uma hesitação. A cada momento o homem é pego pela hesitação, porque um simples passo errado destruirá toda a sua vida. O homem pode perder. Nenhuma besta pode sequer perder. Mas porque o homem pode perder, ele pode ganhar também. Ambas as possibilidades vêm juntas. O homem pode crescer, o homem é crescimento. O mero talvez pode se tornar verdade. O potencial pode ser transformado em realidade. A semente pode se tornar um florescimento. Aquilo que era apenas não-manifesto, pode se manifestar e então acontece um grande esplendor, uma grande bênção. O Buda é, sabe que ele é, e também sabe quem ele é. Esses são os três estágios do crescimento: a besta, o homem e o Buda. A besta tem apenas uma dimensão: ela é, ela existe, completamente inconsciente de que ela existe. Por isso ela não pode pensar em morte. A morte não é um problema para a besta. A morte somente pode se tornar um problema quando você sabe que você é. Com esse conhecimento surge o medo de que um dia você pode deixar de ser. Porque houve um tempo em que você não era e haverá de novo um tempo em que você deixará de ser. A sua existência é momentânea. Você pode desaparecer a qualquer momento. Você desaparecerá algum dia. A morte está por acontecer. É somente o homem que sabe a respeito da morte. É por isso que o homem cria a religião. Religião é a resposta do homem diante da possibilidade da morte. É o esforço do homem para vencer a morte. Nenhum animal é religioso, não pode ser. Sem a consciência da morte, não há possibilidade de religião. Mas antes que você se torne consciente da morte, você terá que se tornar consciente de que você é. Esse é o pré-requisito básico. Assim o homem sabe que ele é, e também se torna consciente e apreensivo de que a qualquer momento ele deixará de ser. O tempo é curto. Para a besta o tempo é não-existencial, o tempo não existe. A besta vive num mundo sem tempo, vive a cada momento. Não pensa no passado nem imagina acerca do futuro. O homem não consegue viver no presente. Ele pensa no passado e em toda a sua nostalgia. Nos dias que foram dourados e que não são mais. E pensa, imagina, fantasia a respeito do futuro, de como os dias deveriam ser. O homem pensa no passado e no futuro. As bestas vivem apenas no presente. Mas elas não estão conscientes de que isso é o presente. Elas não conseguem ser conscientes do presente. Somente quem é consciente do passado e do futuro, pode ser consciente do presente, porque o presente está espremido entre o passado e o futuro. Os animais não têm ansiedade. A memória não os perturba e as imaginações não agitam seus corações. Eles são simples. A existência não tem qualquer complexidade para eles. Quando eles vivem, eles vivem. Quando eles morrem, eles morrem. Eles são inocentes. O tempo não chegou para corromper o ser deles. Mas o homem vive no tempo. Ele é consciente de que ele é, mas ele não é consciente de quem ele é. E isso se torna um grande problema. Quem sou eu? Essa é a pergunta fundamental que homem algum consegue responder. A partir dessa pergunta fundamental surge toda a filosofia, toda a religião, toda a poesia, toda a arte. São diferentes maneiras de se levantar essa pergunta 'Quem sou eu?' e diferentes maneiras de respondê-la. Mas a pergunta é só uma: Quem sou eu? Se você tentar compreender a vida do homem, você verá a persistência dessa simples pergunta. Sim, o homem que é louco por dinheiro também está tentando responder à pergunta 'Quem sou eu?'. Ele pensa que ao ter dinheiro ele saberá quem ele é, ele saberá que ele é rico. Ele terá uma certa identidade. O homem que está buscando o poder está basicamente tentando responder à pergunta 'Quem eu sou?'. Ao se tornar o Primeiro Ministro de um país ele saberá que ele é o Primeiro Ministro. Mas essas respostas são superficiais e não irão satisfazê-lo realmente. Elas podem satisfazer apenas ao medíocre. Elas não podem satisfazer a uma pessoa verdadeiramente inteligente. Mesmo quando você tiver se tornado muito rico, a sua inteligência persistirá em perguntar 'Quem é você? Sim, você tem dinheiro, mas quem é você? Você não é o dinheiro. Você não pode ser aquilo que você possui. Quem é essa pessoa que possui? Sim, você se tornou o Primeiro Ministro de um país, mas aquilo é só uma função, aquilo não é o seu ser. Quem é você? Quem é essa pessoa que não era Primeiro Ministro e que agora é um Primeiro Ministro, e que amanhã talvez possa não ser mais? Essa função de Primeiro Ministro é só um episódio... na vida de quem?' A pergunta persiste. Ela não pode ser respondida por esses empenhos e esforços superficiais. Mas basicamente o homem está tentando fazer isso. Ele se torna um marido, se torna uma mãe, um pai, isso e aquilo... mas o desejo básico é de alguma maneira ter uma identidade: 'eu sou a esposa, eu sou o marido, eu sou o pai, eu sou a mãe.' Mas você ainda não teve a pergunta respondida. Ser uma mãe ou um pai, é simplesmente acidental, é a superfície. O seu centro mais interior permanece intocado. Essa não é a real identidade. Essa é uma identidade falsa. A criança morrerá, então quem é você? Você já não será mais mãe. O marido pode deixá-la, então quem é você? Você já não será mais uma esposa. Essas identidades são muito frágeis e o homem vive constantemente enfrentando crises de identidade. Ele tenta arduamente se ajustar a alguma definição quanto a si mesmo, mas ela acaba escorregando de suas mãos. Somente a pessoa religiosa formula realmente a pergunta, e a formula na direção certa. O Buda existe da mesma forma que a besta existe. O Buda sabe que ele é, da mesma forma que o homem sabe. Mas uma terceira dimensão se abriu: ele sabe quem ele é, ele chegou a ver o seu ser mais interior. Ele não procurou pela identidade no mundo exterior, porque lá não pode estar qualquer identidade. Como ela pode estar no mundo exterior? Você é a sua interioridade, você é o seu mundo interno, você é a sua subjetividade. Como você pode conhecer isso através de objetos? Você pode ter uma bela casa, mas isso é o mundo exterior. Você pode ter belas peças de arte, pinturas, antiguidades, mas elas são o mundo exterior. Elas não podem definir você. Você permanece não-definido por elas. Um dia a casa pega fogo e toda a sua identidade foi queimada, e você está parado na rua, de novo confuso: 'quem sou eu?' É por isso que as pessoas cometem suicídio. Se elas perderam o dinheiro, se elas faliram, elas cometem suicídio. Porque elas cometem suicídio? Alguém pode pensar 'porque?' O dinheiro pode ser ganho novamente... Mas olhe para dentro dessas pessoas. Aquela era a identidade delas. Elas acreditaram por muito tempo que 'eu sou isso'. Agora, toda a minha conta bancária se esgotou e de novo o problema surge: 'quem sou eu?' E elas desperdiçaram toda a vida criando aquela conta bancária. Agora elas não estão preparadas para começar todo aquele esforço de novo. Isso é demais. Elas fracassaram completamente. Na verdade, ao falirem, o suicídio já havia ocorrido. A identidade delas já havia ido. Elas agora não sabem mais quem elas são. A sua face desapareceu. Como elas podem viver sem uma face? A mulher que você tem amado morre e você comete suicídio, ou começa a pensar em cometer suicídio, porque aquela mulher era a sua identidade. Agora você foi deixado sozinho, vazio. E para reiniciar tudo de novo, começar do nada, parece ser demais. É melhor terminar já com toda essa história. Esses são os três estágios. E quando eu digo a besta, existem muitos homens que são como as bestas. Eles não estão nem mesmo conscientes de que eles são. Eles vivem mecanicamente. Existem muitas pessoas que são homens, eles sabem que eles são, mas eles não sabem quem eles são. E no meio deles, existem somente uns poucos, aquelas raras pessoas que sabem quem elas são. Elas se tornam tridimensionais. O homem é uma ponte entre a besta e o Buda. Lembre-se, o homem é uma ponte. Não construa a sua casa sobre a ponte, a ponte não existe para isso. A ponte tem que ser atravessada. Não permaneça um homem, senão você permanecerá na ansiedade e angústia, porque o homem não é um lugar para se ficar e se acomodar. Ele é uma passagem a ser ultrapassada. Ele é uma escada. Você não pode ficar estacionado numa escada. Ela é apenas uma ligação de um ponto a outro ponto. A besta é e está num certo estado de satisfação. Sem ansiedade, sem medo, sem morte, sem ambição, sem buscas, completamente calma e quieta. Porém inconsciente. O Buda está de novo no estado de satisfação, completamente em paz, à vontade, ele chegou, a jornada terminou. Não há nenhum lugar para ir. Ele já alcançou. Entre esses dois está o homem: meio-besta, meio-Buda. Daí surge a tensão: uma parte se movendo para trás e a outra parte se movendo para a frente. O homem está rasgado em pedaços. Deixe-me repetir: o homem ainda não é um ser. O homem perdeu uma maneira de ser, o ser de uma besta. E o homem ainda não alcançou a outra maneira de ser, o ser de um Buda. E o homem está constantemente se movimentando entre esses dois seres, entre essas duas margens. Você não pode voltar, porque na existência não existe movimento de volta. Você não pode voltar no tempo. O tempo só tem uma dimensão: ele flui em direção à frente. Você só pode ir em direção à frente. Não perca tempo pensando que você também pode ser uma besta e que pode viver como uma besta: comer, beber e se divertir. Isso não é possível para um ser humano. Ele terá que pensar, ele terá que ponderar. Ele não pode se dar ao luxo de não pensar. E é muito arriscado fazer isso porque você ficará estagnado e se tornará uma poça de água suja. O seu frescor e a sua vitalidade são possíveis apenas se você seguir num fluxo e fluir até alcançar o oceano. Àquele oceano eu estou chamando de Buda. Buda, o estado de consciência. O homem tem que se tornar um Buda, tem que criar aquele desejo intenso, aquela vontade intensa de se tornar um Buda. Esteja numa busca apaixonada por isso. Coloque toda a energia que você tiver. Torne-se flamejante com essa vontade... e você pode se tornar um Buda. E no dia em que você se tornar um Buda, você terá se tornado um ser novamente. Um ser num nível mais alto, no mais elevado nível. Nada existe mais elevado que isso. Você me pergunta: O que é o homem exatamente? Enquanto homem, o homem não é algo exato, é apenas um fenômeno vago, uma nuvem, um nevoeiro. O homem não é exato porque ele é uma multidão. O homem é muitos homens, por isso ele é um nevoeiro. A unidade está faltando. Você não tem o centro. O centro surge somente através da consciência. O homem vive simplesmente como uma madeira boiando. É por isso que eu digo que o homem é um mero talvez, um confuso paradoxo, um ser absurdo. Ele é e não é. Ele está no meio. Ele é o único animal que pode enlouquecer a si mesmo. Nenhum animal pode enlouquecer a si mesmo, somente o homem, porque o homem tem a capacidade de se tornar sábio. Se você não crescer em sabedoria, você irá se comportar como um louco. Isso é o que a maioria das pessoas no mundo está fazendo. Se você observar a partir de um ponto de vista isento, você ficará surpreso como as pessoas estão vivendo... em tanta confusão, em tanta bagunça, em tanta loucura. Como elas estão se movendo? Elas não estão se movendo em absoluto. Elas estão correndo sem sair do mesmo lugar. E se observar o homem, você ficará surpreso pois é muito raro cruzar com um homem sábio. Tolos e tolos... Tolos em abundância. Mas lembre-se de que nenhum outro animal pode se comportar como um tolo. Você já viu um cachorro comportando-se como um tolo? Nunca. Eles não podem ser tolos porque eles não podem ser sábios. Ambas as possibilidades surgem simultaneamente. Observe a si mesmo. Observe a suas tolices. Esteja constantemente alerta em relação ao que você está fazendo com a sua vida. Esta é uma vida preciosa. O valor que ela tem é tanto que não pode ser medido, não pode ser avaliado. Mas porque ela lhe é dada como uma dádiva, você não aprecia o seu valor. Porque ela tem sido uma bênção de Deus, você acha que ela já está certa e garantida. Isso é tolice. Não a considere como certa e garantida. Ela é uma oportunidade para o crescimento. E você terá que responder a Deus pelo que fez com a sua vida. Você deixou a vida do mesmo jeito que você a recebeu? Ou ainda pior? Pense a respeito disso, de que o homem um dia terá que responder. E a não ser que você seja um Buda, você não será capaz de responder. Porque ser um Buda é ser um Deus, e essa é a sua intrínseca possibilidade. E a não ser que você seja um Deus, você não se sentirá completo. E somente então você conhecerá exatamente o que você é. Agora, neste momento, você não é nada, apenas um mero talvez. OSHO - The Perfect Master - discurso n. 10 - pergunta n. 1 (Tradução: Sw. Bodhi Champak)

sábado, 31 de maio de 2008


Osho,
você pode falar sobre a arte da massagem?

Massagem é algo que você começa a aprender, mas você nunca termina. Ela avança e avança e a experiência se torna continuamente mais profunda e mais profunda e mais alta e mais alta. A massagem é uma das artes mais sutis – e ela não é somente uma questão de perícia. Ela é uma questão de amor.

Aprenda a técnica – então a esqueça. Então apenas sinta e mova-se pelo sentimento. Quando você aprende profundamente, noventa por cento do trabalho é feito pelo amor, dez por cento pela técnica. Apenas através do próprio toque, um toque amoroso, relaxa-se o corpo.

Se você ama e sente compaixão pela outra pessoa e sente o valor supremo dela; se você não a trata como se fosse um mecanismo para ser colocado em ordem, mas uma energia de tremendo valor; se você está agradecido por ela confiar em você e permitir que você brinque com a sua energia – então mais e mais você irá sentir como se você estivesse tocando um órgão. Todo corpo se torna as teclas do órgão e você pode sentir que uma harmonia é criada dentro do corpo. Não somente a pessoa será ajudada, mas você também.

A massagem é necessária no mundo porque o amor desapareceu. Outrora o próprio toque dos amantes era suficiente. Uma mãe tocando o filho, brincando com o seu corpo, era massagem. O marido brincando com o corpo da mulher, era massagem; isto era suficiente, mais do que suficiente. Isto era profundo relaxamento e parte do amor. Mas isto desapareceu do mundo. Mais e mais nós esquecemos onde tocar, como tocar, o quanto profundo tocar. Na verdade, o toque é uma das linguagens mais esquecidas. Nós nos tornamos quase desconfortáveis no toque, porque a própria palavra for corrompida pelas assim chamadas pessoas religiosas. Elas lhe deram uma conotação sexual. A palavra se tornou sexual e as pessoas se tornaram amedrontadas. Todo mundo está de guarda para não ser tocado, a menos que se permita. Agora no ocidente o outro extremo chegou. Toque e massagem se tornaram sexual. Agora a massagem é apenas uma cobertura, um cobertor para a sexualidade. Na verdade nem o toque nem a massagem são sexuais. Eles são funções do amor. Quando o amor cai de sua altura ele se torna sexo e então ele se torna feio.

Assim seja devocional. Quando você toca o corpo de uma pessoa seja devocional – como se o próprio Deus estivesse lá e você está apenas servindo-o. Flua com energia total. E sempre que você vê o corpo fluindo e a energia criando um novo padrão de harmonia, você irá sentir um desfrute que você nunca sentiu antes. Você irá cair em profunda meditação.

Enquanto massagista, apenas massageie. Não pense em outras coisas porque elas são distrações. Esteja em seus dedos e em suas mãos como se todo o seu ser, toda a sua alma estivesse lá. Não deixe que seja apenas um toque do corpo. Toda a sua alma entra no corpo do outro, penetra nele, relaxa os nós mais profundos. E faça disto uma brincadeira. Não o faça como um trabalho; torne-o um jogo e faça-o como uma diversão. Ria e deixe o outro rir também.

A massagem é entrar em sincronia com a energia do corpo de alguém e sentir onde ela está faltando, sentir onde o corpo está fragmentado e torná-lo completo... É ajudar a energia do corpo de modo que ela não seja mais fragmentada, não mais contraditória. Quando as energias do corpo estão alinhadas e se tornam uma orquestra, então você teve sucesso.

Assim tenha muito respeito com o corpo humano. Ele é o verdadeiro santuário de Deus, o templo de Deus. Assim com profunda reverência, prece, aprenda a sua arte. Esta é uma das grandes coisas para aprender.

Texto do mestre Osho, retirado do “Livro da Cura” - Ed. Shakti.

sexta-feira, 30 de maio de 2008


Krishnamurti

A busca do homem

A Mente Torturada - O Caminho Tradicional - A Armadilha da Respeitabilidade - O Ente Humano e o Individuo - A Batalha da Existência - A Natureza Básica do Homem - A Responsabilidade - A Verdade - A Dissipação de Energia - A Libertação da Autoridade.


Através das idades veio o homem buscando uma certa coisa além de si próprio, além do bem-estar material - uma coisa que se pode chamar verdade, Deus ou realidade, um estado atemporal - algo que não possa ser perturbado pelas circunstâncias, pelo pensamento ou pela corrupção humana.

O homem sempre indagou: Qual a finalidade de tudo isto? Tem a vida alguma significação? Vendo a enorme confusão reinante na vida, as brutalidades, as revoltas, as guerras, as intermináveis divisões da religião, da ideologia, da nacionalidade, pergunta o homem, com um profundo sentimento de frustração, o que se deve fazer, o que é isso que se chama viver e se alguma coisa existe além dos seus limites.

E, não podendo encontrar essa coisa sem nome e de mil nomes que sempre buscou, o homem cultivou a fé - fé num salvador ou num ideal, a fé que invariavelmente gera a violência.

Nessa batalha constante que chamamos "viver", procuramos estabelecer um código de conduta conforme à sociedade em que somos criados, quer seja uma sociedade comunista, quer uma pretensa sociedade livre; aceitamos um padrão de comportamento como parte de nossa tradição hinduísta, mulçumana, na, cristã ou outra. Esperamos que alguém nos diga o que é conduta justa ou injusta, pensamento correto ou incorreto e, pela observância desse padrão, nossa conduta e nosso pensar se tornam mecânicos, nossas reações, automáticas. Pode-se observar isso muito facilmente em nós mesmos.

Durante séculos fomos amparados por nossos instrutores, nossas autoridades, nossos livros, nossos santos. Pedimos: "Dizei-me tudo; mostrai-me o que existe além dos montes, das montanhas e da Terra" - e satisfazemo-nos com suas descrições, quer dizer, vivemos de palavras, e nossas vidas são superficiais e vazias. Não somos originais. Temos vivido das coisas que nos têm dito, ou guiados por nossas inclinações, nossas tendências, ou impelidos a aceitar pelas circunstâncias e o ambiente. Somos o resultado de toda espécie de influências e em nós nada existe de novo, nada descoberto por nós mesmos, nada original, inédito, claro.

Consoante a história teológica garantem-nos os guias religiosos que, se observarmos determinados rituais, recitarmos certas preces e versos sagrados, obedecermos a alguns padrões, refrearmos nossos desejos, controlarmos nossos pensamentos, sublimarmos nossas paixões, se nos abstivermos dos prazeres sexuais, então, após torturar suficientemente o corpo e o espírito, encontraremos uma certa coisa além desta vida desprezível. É isso o que têm feito, no decurso das idades, milhões de indivíduos ditos religiosos, quer pelo isolamento, nos desertos, nas montanhas, numa caverna, quer peregrinando de aldeia em aldeia a esmolar, quer em grupos, ingressando em mosteiros e forçando a mente a ajustar-se a padrões estabelecidos. Mas, a mente que foi torturada, subjugada, a mente que deseja fugir a toda agitação, que renunciou ao mundo exterior e se tornou embotada pela disciplina e o ajustamento - essa mente, por mais longamente que busque, o que achar será em conformidade com sua própria deformação.



Assim, para descobrir se de fato existe ou não alguma coisa além desta existência ansiosa, culpada, temerosa, competidora, parece-me necessário tomarmos um caminho completamente diferente. O caminho tradicional parte da periferia para dentro, para, através do tempo, da prática e da renúncia, atingir gradualmente aquela flor interior, aquela íntima beleza e amor - enfim, tudo fazer para nos tornarmos estreitos, vulgares e falsos; retirar as camadas uma a uma; precisar do tempo, amanhã ou na próxima vida chegaremos - e quando, afinal, atingimos o centro, não encontramos nada, porque nossa mente se tornou incapaz, embotada, insensível.
Após observar esse processo, perguntamos a nós mesmos se não haverá outro caminho totalmente diferente, isto é, se não teremos possibilidade de "explodir" do centro.

O mundo aceita e segue o caminho tradicional. A causa primária da desordem em nós existente é estarmos buscando a realidade prometida por outrem; mecanicamente seguimos todo aquele que nos garante uma vida espiritual confortável. É um fato verdadeiramente singular esse, que, embora em maioria sejamos contrários à tirania política e à ditadura, interiormente aceitamos a autoridade, a tirania de outrem, permitindo-lhe deformar a nossa mente e a nossa vida. Assim, se de todo rejeitarmos, não intelectual, porém realmente, a autoridade dita espiritual, as cerimônias, rituais e dogmas, isso significará que estamos sozinhos, em conflito com a sociedade; deixaremos de ser entes humanos respeitáveis. Ora, um ente humano respeitável nenhuma possibilidade tem de aproximar-se daquela infinita, imensurável realidade.
Começais agora por rejeitar uma coisa que é totalmente falsa - o caminho tradicional - mas, se o rejeitardes como reação, tereis criado outro padrão no qual vos vereis aprisionado como numa armadilha; se intelectualmente dizeis a vós mesmo que essa rejeição é uma idéia importante, e nada fazeis, não ireis mais longe. Se entretanto a rejeitardes por terdes compreendido quanto é estúpida e imatura, se a rejeitais com alta inteligência, porque sois livre e sem medo, criareis muita perturbação dentro e ao redor de vós, mas vos livrareis da armadilha da respeitabilidade. Vereis então que cessou o vosso buscar. Esta é a primeira coisa que temos de aprender: não buscar. Quando buscais, agis, com efeito, como se estivésseis apenas a olhar vitrinas.



A pergunta sobre se há Deus, verdade, ou realidade ou como se queira chamá-lo - jamais será respondida pelos livros, pelos sacerdotes, filósofos ou salvadores. Ninguém e nada pode responder a essa pergunta, porém somente vós mesmo, e essa é a razão por que deveis conhecer-vos. Só há falta de madureza na total ignorância de si mesmo. A compreensão de si próprio é o começo da sabedoria.

E, que é vós mesmo, o vós individual? Penso que há uma diferença entre o ente humano e o indivíduo. O indivíduo é a entidade local, o habitante de qualquer país, pertencente a determinada cultura, uma dada sociedade, uma certa religião. O ente humano não é uma entidade local. Ele está em toda parte. Se o indivíduo só atua num certo canto, isolado do vasto campo da vida, sua ação está totalmente desligada do todo. Portanto, é necessário ter em mente que estamos falando do todo e não da parte, porque no maior está contido o menor, mas o menor não contém o maior. O indivíduo é aquela insignificante entidade condicionada, aflita, frustrada, satisfeita com seus pequeninos deuses e tradições; já o ente humano está interessado no bem-estar geral, no sofrimento geral e na total confusão em que se acha o mundo.

Nós, entes humanos, somos os mesmos que éramos há milhões de anos - enormemente ávidos, invejosos, agressivos, ciumentos, ansiosos e desesperados, com ocasionais lampejos de alegria e afeição. Somos uma estranha mistura de ódio, medo e ternura; somos a um tempo a violência e a paz. Têm-se feito progressos, exteriormente, do carro de boi ao avião a jato, porém, psicologicamente, o indivíduo não mudou em nada, e a estrutura da sociedade, em todo o mundo, foi criada por indivíduos. A estrutura social, exterior, é o resultado da estrutura psicológica, interior, das relações humanas, pois o indivíduo é o resultado da experiência, dos conhecimentos e da conduta do homem, englobadamente. Cada um de nós é o depósito de todo o passado. O indivíduo é o ente humano que representa toda a humanidade. Toda a história humana está escrita em nós.

Observai o que realmente está ocorrendo dentro e fora de vós mesmo, na cultura de competição em que viveis, com seu desejo de poder, posição, prestígio, nome, sucesso etc.; observai as realizações de que tanto vos orgulhais, todo esse campo que chamais viver e no qual há conflito em todas as formas de relação, suscitando ódio, antagonismo, brutalidade e guerras intermináveis. Esse campo, essa vida, é tudo o que conhecemos, e como somos incapazes de compreender a enorme batalha da existência, naturalmente lhe temos medo e dela tentamos fugir pelas mais sutis e variadas maneiras. Temos também medo ao desconhecido - temor da morte, temor do que reside além do amanhã. Assim, temos medo ao conhecido e medo ao desconhecido. Tal é a nossa vida diária; nela, não há esperança alguma e, por conseguinte, qualquer espécie de filosofia, qualquer espécie de teologia representa meramente uma fuga à realidade - do que é.

Todas as formas exteriores de mudança, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas; pelas leis e ideologias, falharam completamente, pois não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade. Como seres humanos, vivendo neste mundo monstruoso, perguntemos a nós mesmos: "Pode esta sociedade, baseada na competição, na brutalidade e no medo, terminar? - terminar, não como um conceito intelectual, como uma esperança, porém como um fato real, de modo que a mente se torne vigorosa, nova, inocente, capaz de criar um mundo totalmente diferente?" Creio que isso só ocorrerá se cada um de nós reconhecer o fato central de que, como indivíduos, como entes humanos - seja qual for a parte do universo em que vivamos, não importando a que cultura pertençamos - somos inteiramente responsáveis por toda a situação do mundo.

Somos, cada um de nós, responsáveis por todas as guerras, geradas pela agressividade de nossas vidas, pelo nosso nacionalismo, egoísmo, nossos deuses, preconceitos, ideais - pois tudo isso está a dividir-nos. E só quando percebemos, não intelectualmente, porém realmente, tão realmente como reconhecemos que estamos com fome ou que sentimos dor, bem como quando vós e eu percebemos que somos os responsáveis por todo este caos, por todas as aflições existentes no mundo inteiro, porque para isso contribuímos em nossa vida diária e porque fazemos parte desta monstruosa sociedade, com suas guerras, divisões, sua fealdade, brutalidade e avidez - só então poderemos agir.

Mas, que pode fazer um ente humano, que podeis vós e que posso eu fazer para criaruma sociedade completamente diferente? Estamos fazendo a nós mesmos uma pergunta muito séria. É necessário fazer alguma coisa? Que podemos fazer? Alguém no-lo dirá? Muita gente no-lo tem dito. Os chamados guias espirituais, que supõem compreender essas coisas melhor do que nós, no-lo disseram, tentando modificar-nos e moldar-nos em novos padrões, e isso não nos levou muito longe; homens sofisticados e eruditos no-lo têm dito, e também eles não nos levaram mais longe. Disseram-nos que todos os caminhos levam à verdade; vós tendes o vosso caminho, como hinduísta, outros o tem como cristão, e outros, ainda, o têm como muçulmano; mas, todos esses caminhos vão encontrar-se diante da mesma porta. Isso, quando o consideramos bem, é um evidente absurdo. A verdade não tem caminho, e essa é sua beleza; ela é viva. Uma coisa morta tem um caminho a ela conducente, porque é estática, mas, quando perceberdes que a verdade é algo que vive, que se move, que não tem pouso, que não tem templo, mesquita ou igreja, e que a ela nenhuma religião, nenhum instrutor, nenhum filósofo pode levar-vos - vereis, então, também, que essa coisa viva é o que realmente sois - vossa irascibilidade, vossa brutalidade, vossa violência, vosso desespero, a agonia e o sofrimento em que viveis. Na compreensão de tudo isso se encontra a verdade. E só o compreendereis se souberdes como olhar tais coisas de vossa vida. Mas não se pode olhá-las através de uma ideologia, de uma cortina de palavras, através de esperanças e temores.

Como vedes, não podeis depender de ninguém. Não há guia, não há instrutor, não há autoridade. Só existe vós, vossas relações com outros e com o mundo, e nada mais. Quando se percebe esse fato, ou ele produz um grande desespero, causador de pessimismo e amargura; ou, enfrentando o fato de que vós e ninguém mais sois o responsável pelo mundo e por vós mesmo, pelo que pensais, pelo que sentis, pela maneira como agis, desaparece de todo a autocompaixão. Normalmente, gostamos de culpar os outros, o que é uma forma de autocompaixão.

Poderemos, então, vós e eu, promover em nós mesmos sem dependermos de nenhuma influência exterior, de nenhuma persuasão, sem nenhum medo de punição - poderemos promover em nossa própria essência uma revolução total, uma mutação psicológica, para que não sejamos mais brutais, violentos, competidores, ansiosos, medrosos, ávidos, invejosos enfim, todas as manifestações de nossa natureza que formaram a sociedade corrompida em que vivemos nossa vida de cada dia?

Importa compreender desde já que não estou formulando nenhuma filosofia ou estrutura de idéias ou conceitos teológicos. Todas as ideologias se me afiguram totalmente absurdas. O importante não é uma filosofia da vida, porém que observemos o que realmente está ocorrendo em nossa vida diária, interior e exteriormente. Se observardes muito atentamente o que se está passando, se o examinardes, vereis que tudo se baseia num conceito intelectual. Mas o intelecto não constitui o campo total da existência; ele é um fragmento, e todo fragmento, por mais engenhosamente ajustado, por mais antigo e tradicional que seja, continua a ser uma parte insignificante da existência, e nós temos de interessar-nos pela totalidade da vida. Quando consideramos o que está ocorrendo no mundo, começamos a compreender que não há processo exterior nem processo interior; há só um processo unitário, um movimento integral, total, sendo que o movimento interior se expressa exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage ao interior. Ser capaz de olhar esse fato - eis o que é necessário, só isso; porque, se sabemos olhar, tudo se torna claríssimo. O ato de olhar não requer nenhuma filosofia, nenhum instrutor. Ninguém precisa ensinar-vos como olhar. Olhais, simplesmente.

Assim, vendo todo esse quadro, vendo-o não verbalmente porém realmente, podeis transformar-vos, natural e espontaneamente? Esse é que é o verdadeiro problema. Será possível promover uma revolução completa na psique?

Eu gostaria de saber qual é a vossa reação a uma pergunta dessas. Direis, porventura: "Não desejo mudar" - e a maioria das pessoas não o deseja, principalmente aqueles que se acham em relativa segurança, social e economicamente, ou que conservam crenças dogmáticas e se satisfazem em aceitar a si próprios e às coisas tais como são ou em forma ligeiramente modificada. Tais pessoas não nos interessam. Ou talvez digais, mais sutilmente: "Ora, isso é dificílimo, está fora do meu alcance". Nesse caso, já fechasses o caminho, já cessasses de investigar e será completamente inútil prosseguir. Ou, ainda, direis: "Percebo a necessidade de uma transformação interior, fundamental, em mim mesmo, mas como empreendê-la? Peço-vos me mostreis o caminho, me ajudeis a alcançá-la". Se assim falardes, então o que vos interessa não é a transformação em si, não estais realmente interessado numa revolução fundamental: estais, meramente, a buscar um método, um sistema capaz de efetuar a mudança.

Se fôssemos tão sem juízo que vos déssemos um sistema, e vós tão sem juízo que o seguísseis, estaríeis meramente a copiar, a imitar, a ajustar-vos, a aceitar, e, fazendo tal coisa, teríeis estabelecido em vós mesmo a autoridade de outrem, do que resultaria conflito entre vós e essa autoridade. Pensais que deveis fazer tal e tal coisa porque vo-la mandaram fazer e, no entanto, sois incapaz de fazê-la. Tendes vossas peculiares inclinações, tendências e pressões, que colidem com o sistema que julgais dever seguir e, por conseguinte, existe uma contradição. Levareis, assim, uma vida dupla, entre a ideologia do sistema e a realidade de vossa existência diária. No esforço para ajustar-vos à ideologia, recalcais a vós mesmo e, no entanto, o que é realmente verdadeiro não é a ideologia, porém aquilo que sois. Se tentardes estudar-vos de acordo com outrem, permanecereis sempre um ente humano sem originalidade.
O homem que diz: "Desejo mudar, dizei-me como consegui-lo" - parece muito atento, muito sério, mas não o é. Deseja uma autoridade que ele espera estabelecerá a ordem nele próprio. Mas, pode algum dia a autoridade promover a ordem interior? A ordem imposta de fora gera sempre, necessariamente, a desordem. Podeis perceber essa verdade intelectualmente, mas sereis capaz de aplicá-la de maneira que vossa mente não mais projete qualquer autoridade - a autoridade de um livro, de um instrutor, da esposa ou do marido, dos pais, de um amigo, ou da sociedade? Como sempre funcionamos segundo o padrão de uma fórmula, essa fórmula torna-se em ideologia e autoridade; mas, assim que perceberdes realmente que a pergunta "como mudar?" cria uma nova autoridade, tereis acabado com a autoridade para sempre.

Repitamo-lo claramente: Vejo que tenho de mudar completamente, desde as raízes de meu ser; não posso mais depender de nenhuma tradição, porque foi a tradição que criou essa colossal indolência, aceitação e obediência; não posso contar com outrem para me ajudar a mudar, com nenhum instrutor, nenhum deus, nenhuma crença, nenhum sistema, nenhuma pressão ou influência externa. Que sucede então?

Em primeiro lugar, podeis rejeitar toda autoridade? Se podeis, isso significa que já não tendes medo. E então que acontece? Quando rejeitais algo falso que trazeis convosco há gerações, quando largais uma carga de qualquer espécie, que acontece? Aumentais vossa energia, não? Ficais com mais capacidade, mais ímpeto, maior intensidade e vitalidade. Se não sentis isso, nesse caso não 1argastes a carga, não vos livrasses do peso morto da autoridade.

Mas, uma vez vos tenhais livrado dessa carga e tenhais aquela energia em que não há medo de espécie alguma - medo de errar, de agir incorretamente - essa própria energia não é então mutação? Necessitamos de grande abundância de energia, e a dissipamos com o medo; mas, quando existe a energia que vem depois de nos livrarmos de todas as formas do medo, essa própria energia produz a revolução interior, radical. Nada tendes que fazer nesse sentido.

Ficais então a sós com vós mesmo, e esse é o estado real que convém ao homem que considera a sério estas coisas. E como já não contais com a ajuda de nenhuma pessoa ou coisa, estais livre para fazer descobertas. Quando há liberdade, há energia; quando há liberdade, ela não pode fazer nada errado. A liberdade difere inteiramente da revolta. Não há agir correta ou incorretamente, quando há liberdade. Sois livre e, desse centro, agis. Por conseguinte, não há medo, e a mente sem medo é capaz de infinito amor. E o amor pode fazer o que quer.

O que agora vamos fazer, por conseguinte, é aprender a conhecer-nos, não de acordo comigo ou de acordo com um certo analista ou filósofo; porque, se o fazemos de acordo com outras pessoas, aprendemos a conhecer essas pessoas e não a nós mesmos. Vamos aprender o que somos realmente.

Tendo percebido que não podemos depender de nenhuma autoridade exterior para promover a revolução total na estrutura de nossa própria psique, apresenta-se a dificuldade infinitamente maior de rejeitarmos nossa própria autoridade interior, a autoridade de nossas próprias e insignificantes experiências e opiniões acumuladas, conhecimentos, idéias e ideais. Digamos que tivestes ontem uma experiência que vos ensinou algo, e isso que ela ensinou se torna uma nova autoridade, e vossa autoridade de ontem é tão destrutiva quanto a autoridade de um milhar de anos. A compreensão de nós mesmos não requer nenhuma autoridade, nem a do dia anterior nem a de há mil anos, porque somos entidades vivas, sempre em movimento, sempre a fluir e jamais se detendo. Se olhamos a nós mesmos com a autoridade morta de ontem, nunca compreenderemos o movimento vivo e a beleza e natureza desse movimento.

Livrar-se de toda autoridade, seja própria, seja de outrem, é morrer para todas as coisas de ontem - para que a mente seja sempre fresca, sempre juvenil, inocente, cheia de vigor e de paixão. Só nesse estado é que se aprende e observa. Para tanto, requer-se grande capacidade de percebimento, de real percebimento do que se está passando no interior de vós mesmo, sem corrigirdes o que vedes, nem dizerdes o que deveria ou não deveria ser. Porque, tão logo corrigis, estais estabelecendo outra autoridade, um censor.

Vamos, pois, investigar juntos a nós mesmos; ninguém ficará explicando enquanto ides lendo, concordando ou discordando do explicador ao mesmo tempo que ides seguindo as palavras do texto, porém vamos fazer juntos uma viagem, uma viagem de exploração dos mais secretos recessos de nossa mente. Para empreender essa viagem, precisamos estar livres; não podemos transportar uma carga de opiniões, preconceitos e conclusões - todos os trastes imprestáveis que juntamos no decurso dos últimos dois mil anos ou mais. Esquecei-vos de tudo o que sabeis a respeito de vós mesmo. Esquecei-vos de tudo o que pensastes a vosso respeito; vamos iniciar a marcha como se nada soubéssemos.

A noite passada choveu torrencialmente e agora o céu está começando a limpar-se; é um dia novo, fresco. Encontremo-nos com este dia novo como se fosse nosso único dia. Iniciemos juntos a jornada, deixando para trás todas as lembranças de ontem, e comecemos a compreender-nos pela primeira vez.

quinta-feira, 29 de maio de 2008


Não dá pra acreditar - eu sou feliz!

"Meu médico insistiu para que eu viesse vê-lo', disse o paciente ao psiquiatra. 'Não sei o porquê - pois eu sou feliz no casamento, tenho segurança no meu trabalho, muitos amigos, nenhum problema...' 'Hmmmm,' disse o psiquiatra, procurando por seu caderno de anotações, 'e há quanto tempo você vem se sentindo assim?' "Felicidade não é algo fácil de se acreditar. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você falar sobre sua tristeza, depressão e miséria, todo mundo irá acreditar. Isso parece ser natural. Mas se você falar sobre a sua felicidade, ninguém acreditará em você - isso parece ser não-natural. Sigmund Freud, depois de quarenta anos de pesquisas a respeito da mente humana, trabalhando com milhares de pessoas, observando milhares de distúrbios mentais, chegou à conclusão de que a felicidade é uma ficção: o homem não pode ser feliz. No máximo, nós podemos fazer coisas um pouco mais confortáveis, e isso é tudo. No máximo, nós podemos tornar a infelicidade um pouco menor, e isso é tudo. Mas, feliz, o homem não pode ser. Isso parece ser muito pessimista, mas se olharmos para o homem moderno, veremos que é exatamente assim; parece que isso é um fato. Buda diz que o homem pode ser feliz, tremendamente feliz. Krishna canta canções sobre a felicidade suprema - satchitanand. Jesus fala a respeito do Reino de Deus. Mas como você pode acreditar em tão poucas pessoas, as quais podemos contar nos dedos, contra toda a massa, milhões e milhões de pessoas ao longo dos séculos, que permanecem infelizes, caminhando mais e mais em direção à infelicidade. Toda a vida dessas pessoas é uma história de miséria e nada mais. E depois vem a morte! Como acreditar naquelas poucas pessoas? Ou elas estão mentindo, ou elas estão enganadas. Ou elas estão mentindo por algum motivo, ou elas são meio malucas, enganadas pelas próprias ilusões. Elas devem estar vivendo para satisfazer um desejo. Elas queriam ser felizes e começaram a acreditar que elas eram felizes. Mais do que um fato, isso parece uma crença, uma crença desesperada, Mas como aconteceu dessas poucas pessoas se tornarem felizes? Se você deixar o homem de lado, se você não prestar muita atenção ao homem, então Buda, Krishna, Cristo irão parecer que são mais verdadeiros. Se você olhar para as árvores, se você olhar para os pássaros, se você olhar para as estrelas, então verá que tudo está vibrando em tremenda felicidade. Parece que a felicidade é a matéria-prima com a qual a existência é feita. E somente o homem é infeliz. No fundo, alguma coisa está errada. Buda não está enganado, nem está mentindo. E eu digo isso a você, não com base na autoridade da tradição; eu digo isso a você com base na minha própria autoridade. O homem pode ser feliz, mais feliz que os pássaros, mais feliz que as árvores, mais feliz que as estrelas, porque o homem tem algo que nenhuma árvore, nenhum pássaro, nenhuma estrela tem. O homem tem consciência. Mas quando você tem consciência, então duas alternativas são possíveis: ou você pode tornar-se infeliz, ou você pode tornar-se feliz. A escolha é sua. As árvores simplesmente estão felizes porque elas não podem ser infelizes. A felicidade delas não é liberdade; elas têm que ser felizes. Elas não sabem como ser infelizes, não existe outra alternativa. Esses pássaros gorjeando nas árvores, eles são felizes. Não porque eles tenham escolhido ser felizes; eles simplesmente são felizes porque eles não conhecem outra maneira de ser. A felicidade deles é inconsciente. Ela é simplesmente natural. O homem pode ser tremendamente feliz, e tremendamente infeliz. Ele é livre para escolher. Essa liberdade é um risco. Essa liberdade é muito perigosa, porque você se torna responsável. E algo aconteceu com essa liberdade. Alguma coisa está errada. O homem está, de uma certa maneira, de cabeça para baixo. Você veio até a mim, procurando por meditação. A meditação é necessária somente porque você não escolheu ser feliz. Se você tivesse escolhido ser feliz, não haveria nenhuma necessidade de meditação. A meditação é medicinal: se você está doente, então o medicamento é necessário. Os Budas não precisam de meditação. Uma vez que você começou a escolher a felicidade, uma vez que você decidiu que você tem que ser feliz, então nenhuma meditação é necessária. A meditação começará a acontecer naturalmente, por ela mesma. A meditação é uma função do estar feliz. A meditação segue o homem feliz como uma sombra: em qualquer lugar que ele for, qualquer coisa que ele estiver fazendo, ele estará meditativo. Ele estará intensamente centrado. A palavra 'meditação' e a palavra 'medicação' têm a mesma raiz; e isso é muito significativo. A meditação também é medicinal. Você não carrega vidros de remédios nem receitas médicas se você estiver com saúde. Naturalmente, quando você não está com saúde, você tem que ir ao médico. Ir ao médico não é uma grande coisa para ficar fazendo alarde. A pessoa deve se sentir feliz se o médico não for necessário. Existem muitas religiões, porque existem muitas pessoas infelizes. Uma pessoa feliz não precisa de religião. Uma pessoa feliz não precisa de templo, nem de igreja, porque para uma pessoa feliz, todo o universo é um tempo, toda a existência é uma igreja. Uma pessoa feliz não tem nada parecido com uma atividade religiosa, porque toda a sua vida já é religiosa. Qualquer coisa que você fizer com felicidade será uma prece; seu trabalho se tornará um culto, a sua própria respiração terá um esplendor, uma graça. Não que você repita constantemente o nome de Deus - somente as pessoas tolas fazem isso - porque Deus não tem nome algum, e por repetir algum suposto nome você simplesmente tornará estúpida a sua mente. Por repetir o Seu nome você não irá a lugar algum. Um homem feliz simplesmente vê Deus em todo lugar. E você precisa de olhos felizes para ver Deus. Se você quer ser feliz, então comece a fazer escolhas naturais. Há muitas ocasiões em que você terá que ser desobediente - seja! Haverá muitas ocasiões em que você terá que ser rebelde - seja! Não há nenhum desrespeito implícito nisso. Seja respeitoso com seus pais. Mas lembre-se de que a sua mais profunda responsabilidade é com o seu próprio ser. Todo mundo está sendo empurrado e manipulado. Ninguém sabe qual é o seu destino. O que você realmente sempre quis fazer, foi deixado de lado. E como você pode ser feliz? Alguém que poderia ter sido um poeta, tornou-se simplesmente um emprestador de dinheiro. Alguém que poderia ter sido um pintor, tornou-se um médico. Alguém que poderia ter sido um médico, um belo médico, é agora um homem de negócios. Todo mundo está fora do lugar. Todo mundo está fazendo alguma coisa que nunca quis fazer; daí a infelicidade. A felicidade acontece quando a sua vida se encaixa com o que você é, quando se encaixa tão harmoniosamente que qualquer coisa que você fizer será pura alegria. Então, de repente, você descobrirá que a meditação segue você. Se você ama o trabalho que está fazendo, se você ama a maneira como está vivendo, então você está meditativo. Então nada irá desviar você. Quando você se desvia de certas coisas, isso simplesmente demonstra que você não está realmente interessado naquelas coisas. Nós temos nos desviado por motivos não naturais: dinheiro, prestígio, poder. Ouvir o pássaro cantar não vai lhe dar dinheiro. Ouvir o pássaro cantar não vai lhe dar poder e prestígio. Observar uma borboleta não irá ajudá-lo economicamente, politicamente, socialmente. Essa coisas não lhe trarão remuneração, mas essas coisas irão fazê-lo feliz. Uma pessoa verdadeira tem coragem de se voltar para as coisas que a fazem feliz. Se com isso ela permanecer pobre, ela permanecerá pobre; ela não reclamará disso, ela não guardará nenhum rancor. Ela dirá: 'Eu escolhi o meu caminho, eu escolhi o cantar dos pássaros e as borboletas e as flores. Eu posso não ser rico, tudo bem, mas eu sou rico porque eu sou feliz.' Esse tipo de homem não necessita de qualquer método para se centrar, por que não é preciso, ele está centrado. Seu centramento está por toda a sua vida. Vinte e quatro horas por dia ele está centrado. Em qualquer lugar que você vê dinheiro, você já não é mais você mesmo. Em qualquer lugar que você vê poder e prestígio, você já não é mais você mesmo. Em qualquer lugar que você vê respeitabilidade, você já não é mais você mesmo. Imediatamente você esquece tudo - você esquece os valores intrínsecos de sua vida, a sua felicidade, a sua alegria, o seu deleite. Você sempre escolhe algo do lado de fora, e você barganha com algo do lado de dentro. Você perde o interior e ganha o lado de fora. Mas o que você vai fazer com isso? Mesmo se você tiver todo o mundo aos seus pés, mas se você tiver perdido a si mesmo; mesmo se você tiver conquistado todas as riquezas do mundo, mas se você tiver perdido seu próprio tesouro interior, o que você fará com tudo aquilo? Essa é a miséria. Se você puder aprender uma coisa comigo, então que essa coisa seja: esteja alerta, consciente a respeito de seus próprios motivos mais internos, a respeito de seu próprio destino mais interno. Nunca perca você mesmo de vista, de outra maneira você será infeliz. E quando você estiver infeliz, as pessoas irão dizer: 'medite e você se tornará feliz!' Elas dirão: 'Esteja centrado e você se tornará feliz; ore e você se tornará feliz; vá ao templo, seja religioso, seja um cristão ou um hindu, e você será feliz'. Tudo isso é tolice. Seja feliz! e a meditação virá em seguida. Seja feliz, e a religião virá em seguida. Felicidade é a condição básica. As pessoas se tornam religiosas somente quando elas estão infelizes; então a religião delas é falsa. Tente entender porque você está infeliz. Muitas pessoas vêm a mim e dizem que elas são infelizes, e elas querem que eu lhes dê alguma meditação. Eu digo: primeiro, a coisa básica é compreender porque vocês estão infelizes. E se vocês não removerem todas as causas básicas de sua infelicidade, eu posso lhes dar uma meditação, mas isso não vai ser de grande ajuda, porque as causas básicas permanecem aí. Um certo homem poderia ter sido um grande e belo dançarino, mas ele está sentado num escritório arquivando fichas. Sem qualquer possibilidade para a dança. O homem poderia ter curtido dançar sob as estrelas, mas ele segue simplesmente acumulando contas bancárias. E ele diz que está infeliz: 'me dê alguma meditação.' Eu posso dar a ele, mas o que essa meditação irá fazer? O que se espera que ela possa fazer? Ele vai permanecer o mesmo homem: acumulando dinheiro e sendo competitivo no mercado. A meditação poderá ajudar da seguinte maneira: poderá fazer com que ele fique um pouco mais relaxado para seguir fazendo essas tolices, e de uma maneira ainda melhor. Então, o meu chamado é somente para aqueles que são realmente ousados, aqueles que desafiam o demônio, aqueles que estão prontos para mudar os seus próprios padrões de vida, aqueles que estão prontos para apostar tudo - porque na verdade você nada tem para apostar: somente a sua infelicidade, a sua miséria. Mas as pessoas se agarram até mesmo a isso. O que mais você tem para apostar? Só a miséria. E o único prazer que você tem é falar a respeito dela. Observe as pessoas falando a respeito de suas misérias: quão felizes elas se tornam! Elas pagam por isso: elas vão aos psicanalistas para falar a respeito de suas misérias - e elas pagam por isso! Alguém as escuta atentamente, e elas se sentem felizes. As pessoas seguem falando a respeito de suas misérias, repetidamente. Elas até mesmo exageram, elas enfeitam, elas fazem com que as suas misérias pareçam ainda maiores. Elas fazem com que elas pareçam maiores do que a duração de suas vidas. Por que? Você nada tem para apostar. Mas as pessoas se apegam ao conhecido, ao que é familiar. A miséria é tudo o que elas têm conhecido; isso tem sido a vida delas. Nada têm a perder, mas com tanto medo de perder... Comigo, a felicidade vem primeiro, a alegria vem primeiro. A atitude celebrativa vem primeiro. Uma filosofia afirmativa de vida vem primeiro. Curta! E se você não puder curtir o seu trabalho, mude. Não espere! Porque todo o tempo que você está esperando, você está esperando por Godot. E Godot nunca vem. A pessoa simplesmente espera, e desperdiça sua própria vida. Por quem e por que você está esperando? Se você puder ver o ponto, que você está miserável dentro de um certo padrão de vida, e que todas as velhas tradições dizem: Você está errado. Eu gostaria de dizer que o padrão é que está errado. Tente entender a diferença na ênfase: Você não está errado! É só o seu padrão, a maneira de viver que você aprendeu é que está errado. As motivações que você aprendeu e aceitou como suas, não são suas. Elas não irão realizar o seu destino. Elas vão contra a sua essência, elas vão contra o que lhe é elementar. Lembre-se disso: ninguém mais pode decidir por você. Todos os mandamentos deles, todas as ordens deles, todas as moralidades deles, são simplesmente para matar você. Você tem que decidir ser você mesmo. Você tem que tomar sua vida em suas próprias mãos. De outra maneira a vida vai seguir batendo em sua porta e você nunca estará lá; você estará sempre em algum outro lugar. Se você tinha que ser um dançarino, a vida virá por aquela porta, porque ela pensa que você é um dançarino. Ela bate na porta, mas você não está lá; você é um bancário. E como a vida vai saber que você se tornou um bancário? Deus vem a você da maneira que ele quer você seja; ele conhece apenas aquele endereço. Mas você nunca é encontrado lá, você está sempre em algum outro lugar, escondendo-se atrás da máscara de alguém que não é você, com os trajes de alguém que não é você e usando o nome de alguém que não é você. Como você espera que Deus possa encontrá-lo? Ele segue procurando por você. Ele sabe o seu nome, mas você abandonou aquele nome. Ele conhece o seu endereço, mas você nunca morou lá. Você permitiu que o mundo desviasse você. Por que na cabeça de todo mundo surge essa idéia de que a meditação traz felicidade? De fato, sempre que eles encontram uma pessoa feliz, eles encontram uma mente meditativa, essas duas coisas estão associadas. Sempre que eles encontram uma bela atmosfera meditativa circundando um homem, eles sempre descobrem que ele estava tremendamente feliz; vibrante com a alegria, radiante. Essas coisas se tornaram associadas. E eles pensam que a felicidade vem quando você está meditativo. E é exatamente o oposto: a meditação é que vem quando você está feliz. Mas ser feliz é difícil e aprender a meditar é fácil. Ser feliz significa uma drástica mudança em sua maneira de viver, uma mudança abrupta, porque não há nenhum tempo a perder. Uma mudança súbita, um repentino estrondo de trovão (a sudden clash of thunder), uma descontinuidade. Isso é o que eu entendo por sânias: uma descontinuidade com o passado. Um repentino estrondo de trovão, e você morre para o velho e então, revigorado, você recomeça do bê-a-bá. Você nasce de novo. Você começa de novo a sua vida, como você começaria se os padrões não tivessem sido impostos a você pelos seus pais, pela sociedade, pelo Estado; como se ninguém tivesse desviado você. Mas você foi desviado. Você tem que deixar de lado todos os padrões que foram impostos a você, e você tem que encontrar a sua própria chama interior. Não se preocupe muito com o dinheiro, porque ele é o maior desvio da felicidade. E a ironia das ironias é que as pessoas pensam que elas serão felizes quando elas tiverem dinheiro. Dinheiro nada tem a ver com felicidade. Se você é feliz e você tem dinheiro, você pode usá-lo para a felicidade. Se você é infeliz e tem dinheiro, você usará aquele dinheiro para mais infelicidades. Porque o dinheiro é simplesmente uma força neutra. Eu não sou contra o dinheiro, lembre-se. Não me interprete mal. Eu não sou contra o dinheiro, eu não sou contra nada. Dinheiro é um meio. Se você for feliz e você tiver dinheiro, você se tornará mais feliz. Se você for infeliz e tiver dinheiro, você se tornará mais infeliz, por que o que você fará com o seu dinheiro? O dinheiro vai realçar o seu padrão, seja qual ele for. Se você for miserável e tiver poder, o que você fará com o seu poder? Você irá envenenar a si próprio ainda mais com o seu poder, você se tornará mais miserável. Mas as pessoas seguem atrás do dinheiro como se o dinheiro fosse trazer felicidade. As pessoas seguem procurando por respeitabilidade como se respeitabilidade fosse lhe dar felicidade. As pessoas estão prontas a qualquer momento, para mudar os seus padrões, para mudar os seus caminhos, desde que haja mais dinheiro disponível em algum outro lugar. Uma vez que o dinheiro esteja ali, então de repente você não é mais você mesmo, você está pronto para mudar. Esse é o caminho do homem mundano. Eu não digo que pessoas mundanas são aquelas que têm dinheiro. Eu chamo de pessoas mundanas aquelas que mudam os seus motivos por causa do dinheiro. Eu não digo que as pessoas que não tem dinheiro não sejam mundanas. Elas podem ser simplesmente pobres. Eu digo que as pessoas não são mundanas quando elas não mudam seus motivos por causa de dinheiro. Só por ser pobre não equivale a ser espiritual. E só por ser rico não é equivalente a ser um materialista. O padrão materialista de vida é aquele em que o dinheiro predomina acima de tudo. A vida não materialista é aquela em que o dinheiro é simplesmente um meio; a felicidade predomina, a alegria predomina, a sua própria individualidade predomina. Você sabe quem você é, e para onde está indo, e você não está se desviando. Então, de repente, você vê que a sua vida adquiriu uma qualidade meditativa. Mas em algum ponto do caminho, todo mundo se perdeu. Você foi educado por pessoas que não se realizaram. Você foi educado por pessoas que não tinham saúde. Você pode sentir pena delas. Eu não estou lhe dizendo para ser contra elas. Eu não as estou condenando, lembre-se. Simplesmente sinta compaixão por elas. Os pais, os professores do colégio e da universidade, os chamados líderes da sociedade, eles foram pessoas infelizes. Eles criaram um padrão infeliz em você. E você ainda não assumiu a sua própria vida. Eles viveram segundo uma interpretação errada, e essa foi a miséria deles. E você também está vivendo segundo uma interpretação errada. A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa feliz. A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa alegre. A meditação é muito simples para uma pessoa que pode celebrar, que pode curtir a vida. Mas você tem tentado isso de uma outra maneira, e assim não é possível. OSHO - A Sudden Clash of Thunder (Tradução: Sw. Bodhi Champak)